.I.
Quem seu perfume pensa que é
Para invadir minhas narinas sem permissão?
E quem autorizou seus óculos
A refletirem meu olhar no ocre desavisado?
E por que meus fones de ouvido
Me impedem de ouvir sua voz?
Quem é sua roupa para determinar
A distância de dois calores?
Por que seus sapatos insistem em estar presos
A pés que querem pular em camas limpas?
Por que sua mão repousa em seu colo,
Quando deveria acariciar meu peito?
E quão ousado é seu cabelo,
Por voar no ritmo de um ar não soprado por mim?
E quão sinistro é este tremor,
Que nos leva, tão distantes, ao mesmo destino?
Antes sua pulseira dourada fosse uma algema a nos ater
Antes seu relógio preto fosse uma forma de o tempo deter.
Em que ponto final pararemos,
Quando sequer iniciamos uma sentença com letras maiúsculas?
Em que catraca nos esqueceremos,
Vivendo mortos nestas realidades esdrúxulas?
.II.
Nada a te oferecer além de um bom dia entrecortado por alguma buzina mais histérica que minha instantânea falta de ar. Talvez, e apenas talvez, eu devesse parar de fumar, para, assim, ter algum fôlego caso esse encontro desavisado ocorra novamente, sob a mesma benção da avenida improvável. Numa alvorada qualquer, sorte a minha caso possa reconhecer o prata que guarnece seu olhar. Num crepúsculo perdido, eventualmente eu possa descobrir seu nome e, em um ato de honesta gratidão, te retribuir com o meu.
Perdi a conta das estrelas que brilham em sua pele em forma de sinais de nascença, e rasguei meus diplomas para reaprender a gramática do seu corpo. No léxico dos corpos, faço-me sinonímia do teu sexo e brindo a semântica romântica do zero absoluto. Na interseção que nossos conjuntos possam sugerir, passo a colorir drasticamente o que temos em comum, e, fugindo de linhas cartesianas, rascunho gráficos absurdos que nos diagnostiquem e cataloguem.
Ao final do dia, chego em casa, jogo a mochila sobre a cama, deposito mais este livro na estante e, num próximo ano, sequer lembro o que estudei em você.
.III.
Ouvi dizer que o que nos separou foi o infortúnio. Que talvez, na pressa, eu tenha entrado no trem com destino ao inferno, para o qual você não tinha uma passagem. Mas, como você gostaria de me acompanhar até a esquina mais próxima de meu destino, você entrou na fila para comprar o seu. E eu, claro, corri.
Dizem também que um mensageiro lhe entregou uma carta sem remetente. O envelope, provavelmente selado com um beijo que não o meu, te indicava outro itinerário. Talvez meu horário que fosse ruim, nossos fusos desencontrados, e, assim,Não aconteceu.
De toda forma, viajei em pé e guardei, esperança e assento, para o caso de reconhecer teu semblante em uma próxima estação.
.IV.
Neste mal do quase um terço de século, uma epifania: melhor prestar atenção no vão entre o trem e a plataforma, que me arriscar a mergulhar no abismo entre nós dois. Pois, qual a garantia que tenho que seus braços se estenderiam para me salvar? Que companhia eu teria no fundo do poço, além da velha tosse seca e o resto de um maço de cigarros?
Ah, é mais saudável então ver bem onde piso. E cuidado redobrado, já que não o fiz quando meu ombro doente esbarrou no seu viril. Você deslocou um osso, dois estômagos e quatro corações. Frágil como fiquei, fui imobilizado por um gesso imaginário que só você assinou. Fui reanimado, mas, logo em seguida, eu jazia em sua cama. E nunca mais voltei.
sábado, 19 de setembro de 2015
domingo, 6 de setembro de 2015
Destinatário: eu.
Olá.
Desculpe-me por não começar o endereçamento correto. Por mais que eu seja daquele tipo que sempre segue as regras, acho um pouco redundante colocar meu nome num vocativo direcionado a mim mesmo. Fora que, como tem muito tempo que não escrevo para mim mesmo, assumo que estou um pouco afobado. Acho que estes esclarecimentos (me) são importantes, caso eu resolva revisitar essa carta daqui a três anos e me odiar por não ter seguido todas aquelas regras aprendidas na escola. Isso, claro, se eu enviá-la para mim. Eu sei, eu tenho essa mania estranha de terminar de escrever a carta e ficar com preguiça de levá-la ao correio para selá-la. Fora que parece que não posso mais pagar um centavo para enviar a carta. E, eu sei, eu nunca ando com moedas. Pesam a bolsa, não é mesmo? Tenho certeza que eu concordo com isso. Deveriam abolir as moedas, assim como deveriam abolir os selos. Menos para os colecionadores, eles podem ficar em paz com suas figurinhas adultas. Eu só acho que seria mais efetivo para a comunicação mundial se não houvesse essa barreira burocrática entre os que ainda se escrevem.
Veja eu o quanto eu estou nervoso. Comecei, logo no primeiro parágrafo, a filosofar sobre colecionadores. Eles que morram, com toda essa mania de acumular coisas. Devem sofrer de retenção anal. Freud certamente explicaria isso. Mas, o que ele ainda não conseguiu explicar, e que é o motivo pelo qual eu me escrevo, é: como eu estou? Ouvi dizer que eu mudei de casa, é verdade? Mas eu não estava tão adaptado àquela vidinha arborizada, esportes, samba toda santa segunda-feira e ressacas intermináveis no dia seguinte? Eu sei, eu vou falar que, se tem tanto tempo que eu não me escrevo, como eu sei disso? Mas é que, eu sei, eu entro quase diariamente no Facebook, então sei exatamente o que eu ando fazendo da vida. Porque eu tenho essa péssima mania de publicar tudo o que eu estou fazendo, né? "Olha a minha comida quase fitness de hoje". Aliás, que mania chata é essa de achar que eu estou sempre gordo? Eu não tinha emagrecido não sei quantos quilos e estava postando foto sem camisa? Será que eu engordei tanto pra continuar nessa paranoia? Me escreva, eu adoraria saber qual o carboidrato que eu deveria cortar essa semana e qual o óleo-queima-gordura da moda.
E o meu trabalho, como anda? Eu me lembro que eu não costumava reclamar dele, mas que deixava bem claro que o capital cultural das pessoas era um tanto baixo... Logo eu, que sou fã incondicional de Britney Spears, falando dos meus colegas do trabalho. Mas, tudo bem, eu sou assim mesmo, incongruente, e eu sei que debaixo dessa capa poperô colorida ai que saudade dos anos 90, eu tenho uns dois ou três discos incríveis que deixariam qualquer crítico de música orgulhoso. E o meu livro? Lembro-me que eu estava querendo escrever um livro. Consegui terminar? Estou curiosíssimo para saber quando que eu finalmente vou parar com essa mania de protelar aquilo para o qual eu verdadeiramente tenho talento.
E o meu namorado? Já virou meu marido? Digo, oficialmente. Eu me lembro que eu insistia tanto pra casar, mas, quando eu pude finalmente casar, eu acabei entrando num vórtice misto entre posicionamento político e empurrar com a barriga, tá bom assim, pra que mexer? Não se esqueça que eu adoro bem-casado e quero muito ser convidado para o meu casamento. Certamente eu daria uma festa de arromba. Sei que as coisas ficaram um pouco estremecidas entre nós, aquela vez em que eu me bati contra a parede porque estava muito irritado. E sei que eu disse que não me encararia mais depois daquele incidente, mas acho que já é hora de eu superar isso, não? Não gosto de ficar tão distante de mim, por mais que eu saiba que a vida, bem, a vida é assim. Vive distanciando pessoas que se gostam, pelos mais variados motivos. Mas nunca pensei que eu romperia comigo dessa forma. Que tal eu marcar um café comigo para discutir isso? Uma cerveja? Uma tarde fumando maconha e descobrindo novas bandas? Eu me lembro que eu gostava tanto disso, mas tem muito tempo que eu não me convido para uma tarde dessa. Acho que eu deveria. Me diga o que eu penso.
Bom, vou me despedir por aqui. Minha mão já está doendo (eu sei que eu odeio manuscrever, acho coisa de gente do século passado). Mas, por favor, eu adoraria saber de mim. Na carta segue o meu novo endereço. Parece longe, mas as cartas são entregues direitinho no condomínio, então é 100% seguro que minhas cartas chegarão na minha residência. Eu vou me enviar esta agora mesmo, antes que ela se perca dentro de alguma dessas gavetas cheias de cartas não enviadas.
Com amor,
Eu.
Desculpe-me por não começar o endereçamento correto. Por mais que eu seja daquele tipo que sempre segue as regras, acho um pouco redundante colocar meu nome num vocativo direcionado a mim mesmo. Fora que, como tem muito tempo que não escrevo para mim mesmo, assumo que estou um pouco afobado. Acho que estes esclarecimentos (me) são importantes, caso eu resolva revisitar essa carta daqui a três anos e me odiar por não ter seguido todas aquelas regras aprendidas na escola. Isso, claro, se eu enviá-la para mim. Eu sei, eu tenho essa mania estranha de terminar de escrever a carta e ficar com preguiça de levá-la ao correio para selá-la. Fora que parece que não posso mais pagar um centavo para enviar a carta. E, eu sei, eu nunca ando com moedas. Pesam a bolsa, não é mesmo? Tenho certeza que eu concordo com isso. Deveriam abolir as moedas, assim como deveriam abolir os selos. Menos para os colecionadores, eles podem ficar em paz com suas figurinhas adultas. Eu só acho que seria mais efetivo para a comunicação mundial se não houvesse essa barreira burocrática entre os que ainda se escrevem.
Veja eu o quanto eu estou nervoso. Comecei, logo no primeiro parágrafo, a filosofar sobre colecionadores. Eles que morram, com toda essa mania de acumular coisas. Devem sofrer de retenção anal. Freud certamente explicaria isso. Mas, o que ele ainda não conseguiu explicar, e que é o motivo pelo qual eu me escrevo, é: como eu estou? Ouvi dizer que eu mudei de casa, é verdade? Mas eu não estava tão adaptado àquela vidinha arborizada, esportes, samba toda santa segunda-feira e ressacas intermináveis no dia seguinte? Eu sei, eu vou falar que, se tem tanto tempo que eu não me escrevo, como eu sei disso? Mas é que, eu sei, eu entro quase diariamente no Facebook, então sei exatamente o que eu ando fazendo da vida. Porque eu tenho essa péssima mania de publicar tudo o que eu estou fazendo, né? "Olha a minha comida quase fitness de hoje". Aliás, que mania chata é essa de achar que eu estou sempre gordo? Eu não tinha emagrecido não sei quantos quilos e estava postando foto sem camisa? Será que eu engordei tanto pra continuar nessa paranoia? Me escreva, eu adoraria saber qual o carboidrato que eu deveria cortar essa semana e qual o óleo-queima-gordura da moda.
E o meu trabalho, como anda? Eu me lembro que eu não costumava reclamar dele, mas que deixava bem claro que o capital cultural das pessoas era um tanto baixo... Logo eu, que sou fã incondicional de Britney Spears, falando dos meus colegas do trabalho. Mas, tudo bem, eu sou assim mesmo, incongruente, e eu sei que debaixo dessa capa poperô colorida ai que saudade dos anos 90, eu tenho uns dois ou três discos incríveis que deixariam qualquer crítico de música orgulhoso. E o meu livro? Lembro-me que eu estava querendo escrever um livro. Consegui terminar? Estou curiosíssimo para saber quando que eu finalmente vou parar com essa mania de protelar aquilo para o qual eu verdadeiramente tenho talento.
E o meu namorado? Já virou meu marido? Digo, oficialmente. Eu me lembro que eu insistia tanto pra casar, mas, quando eu pude finalmente casar, eu acabei entrando num vórtice misto entre posicionamento político e empurrar com a barriga, tá bom assim, pra que mexer? Não se esqueça que eu adoro bem-casado e quero muito ser convidado para o meu casamento. Certamente eu daria uma festa de arromba. Sei que as coisas ficaram um pouco estremecidas entre nós, aquela vez em que eu me bati contra a parede porque estava muito irritado. E sei que eu disse que não me encararia mais depois daquele incidente, mas acho que já é hora de eu superar isso, não? Não gosto de ficar tão distante de mim, por mais que eu saiba que a vida, bem, a vida é assim. Vive distanciando pessoas que se gostam, pelos mais variados motivos. Mas nunca pensei que eu romperia comigo dessa forma. Que tal eu marcar um café comigo para discutir isso? Uma cerveja? Uma tarde fumando maconha e descobrindo novas bandas? Eu me lembro que eu gostava tanto disso, mas tem muito tempo que eu não me convido para uma tarde dessa. Acho que eu deveria. Me diga o que eu penso.
Bom, vou me despedir por aqui. Minha mão já está doendo (eu sei que eu odeio manuscrever, acho coisa de gente do século passado). Mas, por favor, eu adoraria saber de mim. Na carta segue o meu novo endereço. Parece longe, mas as cartas são entregues direitinho no condomínio, então é 100% seguro que minhas cartas chegarão na minha residência. Eu vou me enviar esta agora mesmo, antes que ela se perca dentro de alguma dessas gavetas cheias de cartas não enviadas.
Com amor,
Eu.
sábado, 30 de maio de 2015
guitarras.
Nunca fui dado a guitarras. Acho que, desde muito cedo, eu sabia que minha vida seria doada às maracas ou aos sintetizadores. Que é onde eu me deito confortavelmente ou sinto que a vida pode ser mais plástica, mais fake, mais elétrica, ou qualquer outro adjetivo que eu quiser dar. Mais quente. No final das contas, a vida acaba sendo colorida. Desde o florido de uma rua despretensiosa, camisa aberta, barba por fazer, um te quiero perdido entre dois ou três goles de tequila. Ou um digital love marcado com impressões digitais sobre uma pele tão real que o já-já não suporta. Na trilha sonora, vivo suspenso. Transito entre mundos irreais que não vivo - ou por localização geográfica, trabalhado com um material cartográfico não-político patético que restringe, separa, limita, divide; ou por não ser feito de transistores, lâmpadas, corações magnéticos e circuitos. Sou, tão logo, ribeirinho e pangeia. "Pra ficar titânico, nenhuma pátria me pariu", li dias destes revisitando (e re-vestindo) o ontem. Se o espaço é uma mentira, o que dizer do tempo? Se o espaço é feito de rusgas, o tempo não passa de rugas. E ambos parecem afetar minha face, meu corpo, minha pele, meu espaço, nada siderado, sempre vazio. Sou buraco negro, á do início da web 2.0. Quer entrar, tem que ter convite. Racionalizar o espaço é algo que fizemos desde que o físico existe. Então, vamos mapear, situar, colocar um chip GPS em cada existência e limitar. Você está a 2 km do desespero, diz o aplicativo de relacionamentos. Você pode pedir uma pizza que está a 10 minutos do destino final. Sinto saudades do tempo em que "destino final" era, na ficção, o desconhecido. E, na realidade, a morte. Pra que tanto controle?
domingo, 24 de maio de 2015
30.
I cried enough tears
To see my own reflection in them
Desde que entrei no Facebook, em 2010, sempre deixei minha página fechada para postagens. Acho que, por ser um espaço meu, logo eu, que preciso de um palco, nunca deixei que outras pessoas falassem por mim. Eu levo a rede social a sério: sempre depositei meus pensamentos. Sempre achei que, se alguém postasse em minha linha do tempo, este alguém estaria falando por mim. E eu nunca transei essa ideia.
Cinco anos se passaram. Cinco anos de Facebook, cinco anos de Rio de Janeiro, cinco anos de tentativas e erros, cinco anos de leitura, de aprendizado, de auto-conhecimento, de esbórnias, de ressacas, de marés altas, de noites sem dormir, de manhãs dormidas demais, de desbravamentos de zonas desconhecidas (norte a sul, oeste a no leste é o mar). E aquele Alan de ontem, que não deixava ninguém postar em sua timeline, permanece. Dono do palco? Talvez.
Mas, uma vez por ano, eu abro a página. Meu aniversário. Sempre permito que as pessoas depositem ali seus desejos para o novo ano que se instaura pra mim. Leio, sempre, um por um. Às vezes curto, às vezes o tempo é curto demais para curtir cada postagem. Mas meu coração fica cheio de alegria quando vejo todas estas participações (mais que) especiais adentrando em meu palco para uma dança conjunta, braços dados, afetos espalhafatosos e bites e mais bites de TAMOJUNTO.
E, normalmente, respondo no dia seguinte. Mas este ano não.
Acho que precisei digerir. Tive medo dos 30, devo assumir. Mudar de década, dentro de minha cabeça que leva tudo muito a sério mas ainda se porta como um jovem que receia tudo, tive que entender e aceitar que estava entrando em uma nova era, ainda que discursiva. Tive que lidar com o fato que estou distante demais daquilo que eu esperava de mim há quinze anos atrás. Mas tive também que aceitar que o tempo me transformou em algo que eu nunca pensei que pudesse ser.
E todos as felicitações me deixaram claro isso. Ano passado eu tive a breve certeza de que eu sabia o caminho que eu tinha que seguir. Este ano, com uma série de mudanças que me vi obrigado a enfrentar, pensei em deixar essa certeza para lá e aceitar que o mundo, como ele está estruturado, ditasse meu caminho. Mas não. Chegando aos trinta - e uma amiga muito querida me falou: "ah, mas fazer trinta é ótimo: é quando você descobre o que quer", eu reassumo o meu compromisso com a minha existência e desejo, ao apagar as velas, romper com tudo aquilo que eu não acredito. Sei do preço disso. Sei que estar no raso é muito mais confortável, mas estar no raso hoje não me foi suficiente. Eu quero o que transcende.
Isso vai gerar antipatia. Isso vai demandar muito mais leitura, muito mais sensibilidade, muito mais empatia e muito mais ciência de que o outro é uma diferença em si que precisa ser respeitada. Vou precisar de calma, de tempo (até os quarenta dá, né?), de uma certeza, ainda que interna, de que tudo vai dar certo. Por mais que comentários no jornal O Globo me digam o contrário, eu preciso acreditar que o meu norte (e o de tantxs outrxs) é o melhor, sem esmorecer, sem permitir que o pânico se instale a cada grito que contradiga a minha fé.
E hoje eu tenho certeza que eu tenho todas as armas que preciso para isso.
To see my own reflection in them
Desde que entrei no Facebook, em 2010, sempre deixei minha página fechada para postagens. Acho que, por ser um espaço meu, logo eu, que preciso de um palco, nunca deixei que outras pessoas falassem por mim. Eu levo a rede social a sério: sempre depositei meus pensamentos. Sempre achei que, se alguém postasse em minha linha do tempo, este alguém estaria falando por mim. E eu nunca transei essa ideia.
Cinco anos se passaram. Cinco anos de Facebook, cinco anos de Rio de Janeiro, cinco anos de tentativas e erros, cinco anos de leitura, de aprendizado, de auto-conhecimento, de esbórnias, de ressacas, de marés altas, de noites sem dormir, de manhãs dormidas demais, de desbravamentos de zonas desconhecidas (norte a sul, oeste a no leste é o mar). E aquele Alan de ontem, que não deixava ninguém postar em sua timeline, permanece. Dono do palco? Talvez.
Mas, uma vez por ano, eu abro a página. Meu aniversário. Sempre permito que as pessoas depositem ali seus desejos para o novo ano que se instaura pra mim. Leio, sempre, um por um. Às vezes curto, às vezes o tempo é curto demais para curtir cada postagem. Mas meu coração fica cheio de alegria quando vejo todas estas participações (mais que) especiais adentrando em meu palco para uma dança conjunta, braços dados, afetos espalhafatosos e bites e mais bites de TAMOJUNTO.
E, normalmente, respondo no dia seguinte. Mas este ano não.
Acho que precisei digerir. Tive medo dos 30, devo assumir. Mudar de década, dentro de minha cabeça que leva tudo muito a sério mas ainda se porta como um jovem que receia tudo, tive que entender e aceitar que estava entrando em uma nova era, ainda que discursiva. Tive que lidar com o fato que estou distante demais daquilo que eu esperava de mim há quinze anos atrás. Mas tive também que aceitar que o tempo me transformou em algo que eu nunca pensei que pudesse ser.
E todos as felicitações me deixaram claro isso. Ano passado eu tive a breve certeza de que eu sabia o caminho que eu tinha que seguir. Este ano, com uma série de mudanças que me vi obrigado a enfrentar, pensei em deixar essa certeza para lá e aceitar que o mundo, como ele está estruturado, ditasse meu caminho. Mas não. Chegando aos trinta - e uma amiga muito querida me falou: "ah, mas fazer trinta é ótimo: é quando você descobre o que quer", eu reassumo o meu compromisso com a minha existência e desejo, ao apagar as velas, romper com tudo aquilo que eu não acredito. Sei do preço disso. Sei que estar no raso é muito mais confortável, mas estar no raso hoje não me foi suficiente. Eu quero o que transcende.
Isso vai gerar antipatia. Isso vai demandar muito mais leitura, muito mais sensibilidade, muito mais empatia e muito mais ciência de que o outro é uma diferença em si que precisa ser respeitada. Vou precisar de calma, de tempo (até os quarenta dá, né?), de uma certeza, ainda que interna, de que tudo vai dar certo. Por mais que comentários no jornal O Globo me digam o contrário, eu preciso acreditar que o meu norte (e o de tantxs outrxs) é o melhor, sem esmorecer, sem permitir que o pânico se instale a cada grito que contradiga a minha fé.
E hoje eu tenho certeza que eu tenho todas as armas que preciso para isso.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Britney careca e ciclista esfaqueado: uma lâmina de dois gumes.
Eu estava tentando não me manifestar sobre o caso do ciclista assassinado na Lagoa. Muito talvez pelo amor que recebi ontem em meu aniversário, hoje acordei namastê pra caralho, abraçando árvores, falando com duendes e acreditando em fadas. Mas não dá. Primeiro porque me dou conta que 70% de todo o amor que foi despejado em cima de mim é JUSTAMENTE por eu escrever, por eu debater, por eu perder horas a fio falando sobre os mais variados assuntos. E, depois, porque vendo o que a galera escreve nas redes sociais, sem o menor comprometimento com uma construção REAL dos direitos humanos, chega uma hora que a panela de pressão explode.
Primeiro item: os direitos humanos não foram feitos para humanos direitos. Acabei de ler uma insinuação desta na página de uma advogada ligada à militância LGBT. Pelo menos, aquela militância institucional, que vê o LGBT sendo L e G, não compreende o B, e patologiza o T. Nada de novo, exceto a possibilidade de angariar um nicho mercadológico-jurídico novo, mais escrituras de Uniões Estáveis, e, com um pouco de sorte, mais dissoluções lá na frente. Porque divisão de patrimônio é que dá dinheiro, não é mesmo? O mesmo pink money de sempre, mas só com uma roupagem.
Os direitos humanos foram criados para os humanos tortos. Isso mesmo. Aqueles humanos que, por serem dissonantes de determinado padrão hegemônico, são escrachados, ridicularizados, marginalizados, escravizados, comercializados. È pra bicha escandalosa, pra sapatona desvairada, pra travesti que se prostitui, pro preto-pobre-favelado (se entrar pro crime, melhor ainda), pra mulher que apanha em casa, pra mulher que enfrenta o mercado de trabalho de maneira empoderada. Então não mete esse caô de "ah, eu, pobre classe média sofredora, que pago impostos que não são revertidos pra mim". Porque eles são. Não da melhor maneira, mas quando você compra um carro zero com isenção de IPI, bem, alguém está pagando, não é? Quando se vota um projeto de lei para anistiar planos de saúde, bem, esse dinheiro está saindo de algum lugar, não é? Mas certamente não é do bolso vazio daquele que anda de ônibus lotado todos os dias e que, quando fica doente, não tem o direito de sequer um leito para se deitar e tomar remédio. Eu quero que os humanos direitos se contorçam de ódio a cada vez que uma bandeira de RESISTÊNCIA, de RE-EXISTÊNCIA, é hasteada por aí.
Segundo item: No dia anterior ao meu aniversário, eu me reuni com alguns amigos e tomei umas muitas cervejas. E tive uma epifania torpe, quase escatológica: o assassinato do ciclista (e eu ME RECUSO a chamá-lo pelo nome próprio enquanto diariamente inúmeros brasileiros são enterrados como indigentes - vale lembrar as travestis que não têm seu nome social respeitado nem mesmo no pós-morte, e os milhares de pobres que jamais vão alcançar a primeira página de um jornal quando massacrados pelo Estado - e não estou falando de casos emblemáticos como Amarildo e Cláudia. Estou falando do DIARIAMENTE), dentro da minha cabeça, é o mesmo episódio de quando Britney Spears raspou a cabeça.
Me explico: dentro do imaginário social doentio-capitalista-pra-caralho, esteta até morrer dos Estados Unidos (estetas unidos?), é comum e motivo de orgulho para muitos pais inscrever suas filhas em concursos de mini-misses. O que mais tem na TV é reality shows mostrando essa mania torpe de destruir a infância das crianças em nome de um reconhecimento econômico posterior. Veja, e isso é uma CARREIRA. Britney iniciou logo cedo, trabalhou na Disney, lançou primeiro disco e, em 2007, pá, perdeu a linha, bebeu mais que devia, fumou um cigarrinho do capeta (provavelmente, né mores?) e raspou a cabeça.
Isso me soa como um desequilíbrio estrutural do próprio sistema - e é aqui que eu comparo os dois episódios. Vejam: se eu parto de um princípio em que o "natural" é uma criança-estrela crescer e ser a "miss american dream" (como Spears mesmo se auto-proclama em uma de suas músicas), quando ela faz qualquer coisa diferente do programado (programado MESMO), é porque algo deu muito errado. A pressão midiática, a retirada compulsória de uma infância, um casamento monitorado a todo tempo, enfim, fez com que ela perdesse completamente o juízo (ao menos aquele estabelecido por padrões psiquiátricos majoritários - até pq eu não vejo problema nenhum em usar drogas e raspar a cabeça, mas enfim).
No outro giro, o ciclista estava gozando de sua vida que foi programada para ele, morador da Zona Sul e habituée da Lagoa. Notem que isso não é um ataque pessoal: a própria esposa disse ser contra a redução da maioridade penal; eu não o conheço, não sei os pontos de vista dele sobre nada. É apenas a figura que ele representa, o recorte social que é protegido a todo tempo pelo Estado: a classe média (aquela verdadeira, aquela de várzea, aquela de raiz). Quando vem um jovem negro pobre marginalizado e, hoje, menor infrator, ele está se rebelando contra o status quo, ele está rasgando um script idealizado há tanto pelos detentores do poder. Ora, como podemos chamá-lo de criminoso se ele não passa de uma testemunha oprimida do Contrato Social? Não é aqui embaixo que as leis são diferentes: é lá em cima, onde esse garoto testemunhou mortes desde a infância, abandono familiar E governamental (como foi denunciado hoje pelo Jornal Extra). O menor é nosso anti-heroi - ele busca apenas o egoísmo da sobrevivência. Mas quem falou em egoísmo mesmo?
Conclusão: Acho que as pessoas perderam completamente a capacidade de interpretar um texto. O mundo - repito - é tomado de discursos de todas as ordens possíveis, mas apenas vendo de longe é possível apreender a bigger picture, que, para mim, compreende a interpretação adequada de todos os discursos. Não tem problema ir para um lado mais conservador: eu defendo seu direito de pensar equivocadamente. Mas o faça de maneira fundamentada, com bons argumentos, e não com intuito de preservar apenas o seu egoísmo (ah, sim, eu quem falei sobre egoísmo) que você brada, heroico, enquanto um suposto humano direito. Volte três casas no jogo da vida, compreenda, coloque-se no lugar do outro, perceba as diferenças em si que cada ser vivo possui e apenas depois disso você coloque seus dedos furiosos sobre um teclado de computador para vociferar um ódio que se presta apenas para fomentar mais o abismo social existente entre os vários recortes que existem por aí. E esse raciocínio, essa estratégia vale para QUALQUER opressão. Inclusive a que você deve experimentar diariamente, mas que, com o manto de cidadão de bem que o poder te emprestou momentaneamente para falar merda, você não consegue perceber.
Em suma: enquanto você não fizer isso... sua vida será um lixo.
Primeiro item: os direitos humanos não foram feitos para humanos direitos. Acabei de ler uma insinuação desta na página de uma advogada ligada à militância LGBT. Pelo menos, aquela militância institucional, que vê o LGBT sendo L e G, não compreende o B, e patologiza o T. Nada de novo, exceto a possibilidade de angariar um nicho mercadológico-jurídico novo, mais escrituras de Uniões Estáveis, e, com um pouco de sorte, mais dissoluções lá na frente. Porque divisão de patrimônio é que dá dinheiro, não é mesmo? O mesmo pink money de sempre, mas só com uma roupagem.
Os direitos humanos foram criados para os humanos tortos. Isso mesmo. Aqueles humanos que, por serem dissonantes de determinado padrão hegemônico, são escrachados, ridicularizados, marginalizados, escravizados, comercializados. È pra bicha escandalosa, pra sapatona desvairada, pra travesti que se prostitui, pro preto-pobre-favelado (se entrar pro crime, melhor ainda), pra mulher que apanha em casa, pra mulher que enfrenta o mercado de trabalho de maneira empoderada. Então não mete esse caô de "ah, eu, pobre classe média sofredora, que pago impostos que não são revertidos pra mim". Porque eles são. Não da melhor maneira, mas quando você compra um carro zero com isenção de IPI, bem, alguém está pagando, não é? Quando se vota um projeto de lei para anistiar planos de saúde, bem, esse dinheiro está saindo de algum lugar, não é? Mas certamente não é do bolso vazio daquele que anda de ônibus lotado todos os dias e que, quando fica doente, não tem o direito de sequer um leito para se deitar e tomar remédio. Eu quero que os humanos direitos se contorçam de ódio a cada vez que uma bandeira de RESISTÊNCIA, de RE-EXISTÊNCIA, é hasteada por aí.
Segundo item: No dia anterior ao meu aniversário, eu me reuni com alguns amigos e tomei umas muitas cervejas. E tive uma epifania torpe, quase escatológica: o assassinato do ciclista (e eu ME RECUSO a chamá-lo pelo nome próprio enquanto diariamente inúmeros brasileiros são enterrados como indigentes - vale lembrar as travestis que não têm seu nome social respeitado nem mesmo no pós-morte, e os milhares de pobres que jamais vão alcançar a primeira página de um jornal quando massacrados pelo Estado - e não estou falando de casos emblemáticos como Amarildo e Cláudia. Estou falando do DIARIAMENTE), dentro da minha cabeça, é o mesmo episódio de quando Britney Spears raspou a cabeça.
Me explico: dentro do imaginário social doentio-capitalista-pra-caralho, esteta até morrer dos Estados Unidos (estetas unidos?), é comum e motivo de orgulho para muitos pais inscrever suas filhas em concursos de mini-misses. O que mais tem na TV é reality shows mostrando essa mania torpe de destruir a infância das crianças em nome de um reconhecimento econômico posterior. Veja, e isso é uma CARREIRA. Britney iniciou logo cedo, trabalhou na Disney, lançou primeiro disco e, em 2007, pá, perdeu a linha, bebeu mais que devia, fumou um cigarrinho do capeta (provavelmente, né mores?) e raspou a cabeça.
Isso me soa como um desequilíbrio estrutural do próprio sistema - e é aqui que eu comparo os dois episódios. Vejam: se eu parto de um princípio em que o "natural" é uma criança-estrela crescer e ser a "miss american dream" (como Spears mesmo se auto-proclama em uma de suas músicas), quando ela faz qualquer coisa diferente do programado (programado MESMO), é porque algo deu muito errado. A pressão midiática, a retirada compulsória de uma infância, um casamento monitorado a todo tempo, enfim, fez com que ela perdesse completamente o juízo (ao menos aquele estabelecido por padrões psiquiátricos majoritários - até pq eu não vejo problema nenhum em usar drogas e raspar a cabeça, mas enfim).
No outro giro, o ciclista estava gozando de sua vida que foi programada para ele, morador da Zona Sul e habituée da Lagoa. Notem que isso não é um ataque pessoal: a própria esposa disse ser contra a redução da maioridade penal; eu não o conheço, não sei os pontos de vista dele sobre nada. É apenas a figura que ele representa, o recorte social que é protegido a todo tempo pelo Estado: a classe média (aquela verdadeira, aquela de várzea, aquela de raiz). Quando vem um jovem negro pobre marginalizado e, hoje, menor infrator, ele está se rebelando contra o status quo, ele está rasgando um script idealizado há tanto pelos detentores do poder. Ora, como podemos chamá-lo de criminoso se ele não passa de uma testemunha oprimida do Contrato Social? Não é aqui embaixo que as leis são diferentes: é lá em cima, onde esse garoto testemunhou mortes desde a infância, abandono familiar E governamental (como foi denunciado hoje pelo Jornal Extra). O menor é nosso anti-heroi - ele busca apenas o egoísmo da sobrevivência. Mas quem falou em egoísmo mesmo?
Conclusão: Acho que as pessoas perderam completamente a capacidade de interpretar um texto. O mundo - repito - é tomado de discursos de todas as ordens possíveis, mas apenas vendo de longe é possível apreender a bigger picture, que, para mim, compreende a interpretação adequada de todos os discursos. Não tem problema ir para um lado mais conservador: eu defendo seu direito de pensar equivocadamente. Mas o faça de maneira fundamentada, com bons argumentos, e não com intuito de preservar apenas o seu egoísmo (ah, sim, eu quem falei sobre egoísmo) que você brada, heroico, enquanto um suposto humano direito. Volte três casas no jogo da vida, compreenda, coloque-se no lugar do outro, perceba as diferenças em si que cada ser vivo possui e apenas depois disso você coloque seus dedos furiosos sobre um teclado de computador para vociferar um ódio que se presta apenas para fomentar mais o abismo social existente entre os vários recortes que existem por aí. E esse raciocínio, essa estratégia vale para QUALQUER opressão. Inclusive a que você deve experimentar diariamente, mas que, com o manto de cidadão de bem que o poder te emprestou momentaneamente para falar merda, você não consegue perceber.
Em suma: enquanto você não fizer isso... sua vida será um lixo.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
A foda (não) tá liberada.
Ontem foi o Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia e muitas postagens foram feitas, muito arco-íris, muito chat da uol, muito grindr e muito, claro, amor.
Inclusive, a postagem que MAIS me incomodou foi uma que dizia justamente que ontem era um dia de defender o direito de amarmos quem bem entendermos.
Não quero soar pessimista, nem anti-romântico, nem uma Lana Del Rey dos trópicos desesperada desestimulada, mas o que eu acredito é que a fonte da homofobia (ou da lesbofobia, ou da transfobia) não é exatamente THE LOVE ON THE SIDE, mas sim porque MY PUSSY TASTE LIKE PEPSI-COLA.
Porque, em verdade, não vejo as pessoas reproduzindo ódio contra o amor. Não. O amor romântico, essa invenção que deu muito certo para justificar a criação e manutenção das famílias, quando o fundamento patrimonial entra em colapso (embora nosso sistema jurídico, por mais tenha elevado o afeto como o fundamento das famílias, ainda preveja seus efeitos patrimoniais), em meu entender, não é o que faz as pessoas marginalizarem os LGBTs; quem faz isso é o sexo.
Num mundo falocêntrico e reprodutivo, o sexo com a boca e com o cu é sujo (bactérias no alfa, coliformes no ômega) e, no imaginário popular, o sexo entre lésbicas sempre vai ser incompleto por faltar o que enfiar. A única coisa que é aceita, fomentada, regulamentada e protegida é o coito vaginal. INTRODUTIO PENIS IN VAS, já diria o brocardo latino, num juridiquês babaca que sustentou, durante muito tempo, parte significativa dos nossos crimes contra a dignidade sexual.
Se de um lado (aquele médico) o amor é uma resposta neurobiológica do corpo, com produção/supressão de hormônios - o que faz com que a medicina relacione com a libido (pela produção de feromônios) e com certos tipos de doenças psíquicas (pela supressão de serotonina), por outro, o sexo é inegavelmente sujo, perversão, promiscuidade. Não é um certo livro que fala em "deitar com homem" ser "abominação"? - não se fala em amor aqui. O funk carioca, aquele proibidão, não é proibido justamente por violar toda e qualquer classificação etária (e otária) em seus versos despudorados e estrofes que arrombam o hímem da castidade inventada? O caso da MC Melody só não virou um escândalo porque seu pai, muito além de estar explorando seu trabalho, estava o fazendo com insinuações sexuais de uma menina que nem sequer havia alcançado a idade púbere? Mesmo quando sabemos que a exploração do trabalho infantil é um dos grandes males que assolam a humanidade e, mesmo assim, são poucas as vozes que se levantam contra essa barbárie?
Mas, para cair novamente no amor romântico, o que se defende, majoritariamente nos meios oficiais, não é o vínculo afetivo? Casamento igualitário, formação de famíliaS plurais? O sexo continua sendo deixado de lado. Romances cinematográficos não são exibidos no telão sem qualquer tipo de censura, enquanto os cinemas sexuais da Cinelândia são deixados apenas para os pervertidos, os doentes, os que devem ser mantidos à margem da sociedade? 50 Tons de Cinza não se tornou a febre que se tornou por seu romance subjacente, e não pela suposta prática de S&M?
Não é necessário, claro, regulamentar o sexo. Essa fase nós já passamos e a tarefa foi muito bem sucedida. Já (re)produzimos ódio, já promovemos escárnio, já tachamos de "promíscuo" aquele que apenas quer aproveitar os prazeres e não se submete às "responsabilidades" do amor (criação de família, subjugação a um sistema monogâmico, reprodução, etc).
Não podemos nos deixar enganar. O ódio não é contra o amor. O que essa imagem me provocou, muito além de uma refexão positiva em relação a uma data tão importante, foi a sensação de estarmos sendo enganados em nossa militância diária, em nossas não-militâncias, em nossas existências. O buraco (no caso, o cu, a buceta, a narina, o ouvido, ou qualquer outra porta de entrada - não de um pênis, mas do prazer) é muito mais embaixo e ninguém quer tocar nesses assuntos. Mas é necessário. E urgente.
Inclusive, a postagem que MAIS me incomodou foi uma que dizia justamente que ontem era um dia de defender o direito de amarmos quem bem entendermos.
Não quero soar pessimista, nem anti-romântico, nem uma Lana Del Rey dos trópicos desesperada desestimulada, mas o que eu acredito é que a fonte da homofobia (ou da lesbofobia, ou da transfobia) não é exatamente THE LOVE ON THE SIDE, mas sim porque MY PUSSY TASTE LIKE PEPSI-COLA.
Porque, em verdade, não vejo as pessoas reproduzindo ódio contra o amor. Não. O amor romântico, essa invenção que deu muito certo para justificar a criação e manutenção das famílias, quando o fundamento patrimonial entra em colapso (embora nosso sistema jurídico, por mais tenha elevado o afeto como o fundamento das famílias, ainda preveja seus efeitos patrimoniais), em meu entender, não é o que faz as pessoas marginalizarem os LGBTs; quem faz isso é o sexo.
Num mundo falocêntrico e reprodutivo, o sexo com a boca e com o cu é sujo (bactérias no alfa, coliformes no ômega) e, no imaginário popular, o sexo entre lésbicas sempre vai ser incompleto por faltar o que enfiar. A única coisa que é aceita, fomentada, regulamentada e protegida é o coito vaginal. INTRODUTIO PENIS IN VAS, já diria o brocardo latino, num juridiquês babaca que sustentou, durante muito tempo, parte significativa dos nossos crimes contra a dignidade sexual.
Se de um lado (aquele médico) o amor é uma resposta neurobiológica do corpo, com produção/supressão de hormônios - o que faz com que a medicina relacione com a libido (pela produção de feromônios) e com certos tipos de doenças psíquicas (pela supressão de serotonina), por outro, o sexo é inegavelmente sujo, perversão, promiscuidade. Não é um certo livro que fala em "deitar com homem" ser "abominação"? - não se fala em amor aqui. O funk carioca, aquele proibidão, não é proibido justamente por violar toda e qualquer classificação etária (e otária) em seus versos despudorados e estrofes que arrombam o hímem da castidade inventada? O caso da MC Melody só não virou um escândalo porque seu pai, muito além de estar explorando seu trabalho, estava o fazendo com insinuações sexuais de uma menina que nem sequer havia alcançado a idade púbere? Mesmo quando sabemos que a exploração do trabalho infantil é um dos grandes males que assolam a humanidade e, mesmo assim, são poucas as vozes que se levantam contra essa barbárie?
Mas, para cair novamente no amor romântico, o que se defende, majoritariamente nos meios oficiais, não é o vínculo afetivo? Casamento igualitário, formação de famíliaS plurais? O sexo continua sendo deixado de lado. Romances cinematográficos não são exibidos no telão sem qualquer tipo de censura, enquanto os cinemas sexuais da Cinelândia são deixados apenas para os pervertidos, os doentes, os que devem ser mantidos à margem da sociedade? 50 Tons de Cinza não se tornou a febre que se tornou por seu romance subjacente, e não pela suposta prática de S&M?
Não é necessário, claro, regulamentar o sexo. Essa fase nós já passamos e a tarefa foi muito bem sucedida. Já (re)produzimos ódio, já promovemos escárnio, já tachamos de "promíscuo" aquele que apenas quer aproveitar os prazeres e não se submete às "responsabilidades" do amor (criação de família, subjugação a um sistema monogâmico, reprodução, etc).
Não podemos nos deixar enganar. O ódio não é contra o amor. O que essa imagem me provocou, muito além de uma refexão positiva em relação a uma data tão importante, foi a sensação de estarmos sendo enganados em nossa militância diária, em nossas não-militâncias, em nossas existências. O buraco (no caso, o cu, a buceta, a narina, o ouvido, ou qualquer outra porta de entrada - não de um pênis, mas do prazer) é muito mais embaixo e ninguém quer tocar nesses assuntos. Mas é necessário. E urgente.
sábado, 16 de maio de 2015
CHILIQUE DEFINITIVO: leave banha alone (ou: Gordofobia é quase amor?)
Saí hoje do plantão e, como de costume, peguei o celular enquanto esperava o 332. Não gosto de ler no ponto, porque eu sou meio distraído e, se eu perco o ônibus, só depois de meia hora vem outro. Morar longe dá nisso. Então, normalmente é a hora que eu dou uma passada nas produções da madrugada: fotos de festas, amigos bêbados, mensagens que não podem ser codificadas e, às vezes, alguns compartilhamentos bobos, sem nenhuma pretensão. Além disso, feeds de páginas gringas que, dado o fuso horário, estão em pleno funcionamento.
Cinco postagens sobre emagrecimento. Cinco. Da página G (de onde eu não espero nada de edificante, anyway) a um aparelho milagroso que transforma a gordura abdominal em bateria para o celular (enquanto queima a gordura, diz a publicidade), todas as postagens enalteciam o corpo magro. Revi a origem das publicações para saber de onde vinham, e nenhuma página era relacionada a fitness.
Porque i've been there, done that. Quem me acompanha sabe que eu passei dois anos frequentando academia e com alimentação bastante restrita, até que eu alcancei o manequim 38, a camisa P, suava menos e era muito mais passável aos olhos do júri social. Adoraria ter medido a diferença em likes do Tinder, mas eu não dispunha de tal tecnologia na época. Então, eventualmente, poderiam ser postagens relacionadas a fitness, pero no: duas postagens vinham de amigos, três postagens vinham de página.
Há algum tempo atrás - na época da dieta - escrevi um longo texto justificando que eu havia me libertado dos grilhões estéticos e, naquele momento, eu me proclamava apenas um guardião da boa saúde (escrevo isso enquanto revezo entre coxinhas, quibes e bolinhas de queijo): àquele tempo, eu já não era trouxa pra acreditar na imposição do capital para o corpo perfeito, mas eu fazia aquilo pra manter os exames em dia e soar exemplar para qualquer jaleco-branco que viesse me mensurar.
Mas, em primeiro lugar, nunca estamos livres completamente, não é mesmo? Ao menos, não em se tratando do inconsciente. Vejam: eu ia diariamente à academia, era exposto a corpos esbeltos, a corpos grandes, a corpos suplementados e anabolizados. Nunca comprei uma camisa da Nike para correr porque eu acho um disparate gastar três dígitos em algo no que vou SUAR, mas gostava de estar sempre impecável, apresentável, para os colegas da academia que eu sequer trocava mais de três palavras. Torrava cerca de quatrocentos reais ao mês em suplementos. Cheguei a tomar um "anabolizante levinho", tudo muito estudado, tudo muito bem orientado, "só pra dar um gás". Na saúde é que não foi.
Por vários motivos, que vão desde ter morado praticamente ao lado de um dos meus bares preferidos, até uma mudança repentina, drástica e dramática (como tudo na minha vida), eu promovi um apocalipse no meu corpo (acabaram os salgadinhos, mas penso em abrir a despensa e catar um chocolate de lá) e estou hoje quase com o mesmo corpo que estava antes de iniciar a dieta. Em termpos de peso, porque a postura é outra, afinal, a academia realmente promove essa mudança. Mas já passei por isso antes e certamente daqui a pouco minha postura vai estar novamente a mesma. E eu, bem, eu continuo sendo eu.
Mas saindo da órbita do meu umbigo - este prefácio foi apenas para demonstrar que eu passei pelo que estou falando, o fato é que, dentro do discurso do corpo magro, apenas duas vertentes fundamentais são utilizadas para justificar a exclusão das milhões de pessoas (que são maioria) que não ostentam o corpo perfeito: de um lado, a ditadura do corpo; de outro, a saúde.
A ditadura do corpo não pode vencer. É um argumento raso. Presta apenas a atender ao capital: pessoas magras sentem-se à vontade de comprar mais roupas, logo, consomem mais; essa ordem das coisas se dá, claro, por termos adotada uma vestimenta que é ditada pela moda, que desfila corpos anoréxicos em passarelas que permitem o caimento dito perfeito de qualquer tecido. Quando falamos em inclusão, a moda vem e lança uma modelo plus size que, na verdade, só tem mais bunda. Para os homens, ainda que os termos sejam mais flexíveis (vejam a TENDÊNCIA SEXUAL de agora, o Dad Bod - homens com corpo normal, mas que a barriga não estrapola o limite da "barriguinha de cerveja"), o mundo da moda também é dramático: six-packs enfileirados prometendo ao usuário daquela roupa/marca sucesso afetivo, sexual e profissional. Qualquer pessoa que não esteja dentro destes padrões (ou das exceções que o próprio capital enuncia quando seus padrões entram em colapso), é automaticamente jogada para escanteio, ridicularizada, tratada como sub-humana: incapaz de se relacionar, de ascender profissionalmente, e, em casos mais drásticos, de ser limpa. Não foi Nelson Rodrigues quem falou que a gorda tem varizes e sua azedo?
Mas aí vem a tábua de salvação retórica do padrão hegemônico: a saúde. A medicina, por ser tão cara à humanidade, a zeladora da vida, cujos representantes na terra são pessoas sem doutorado a quem chamamos de doutores, vem e sentencia que devemos ser magros. Colesterol, riscos vasculares, complicações ortopédicas, tudo é utilizado para salvar uma vida gorda e, o mais importante: controlar uma vida gorda.
Não é de hoje que a Medicina controla a vida das pessoas. E quando falo em "vida", não estou falando apenas de seu aspecto material, aquela coisa que acaba com a morte; estou falando sim dos comportamentos, pensamentos, posicionamentos. A medicina é, muito antes do conjunto de práticas para a melhoria da saúde humana, um discurso político. Em um tempo em que mulheres não tinham direito a nada além de casar e ser absolutamente submissas ao marido, o comportamento sexual das mesmas era controlado sob o fundamento da histeria. A loucura, do ramo psiquiátrico, pode simplesmente ser uma vontade de a pessoa não se adequar em nenhuma caixinha que empurramos para ela logo ao nascer. Pessoas transexuais são tidas até hoje pela psiquiatria como pessoas que padecem de transtorno identitário. Tratamentos já foram realizados para extinguir a população negra, promovendo uniões interraciais cuja prole seria menos negra que o seu parent negro. E, num processo contínuo de exclusão e marginalização, a Medicina, muito politicamente, vai determinando quem está apto ou não para uma vida plena.
Então, esse pensamento, esse fundamento da saúde não pode existir. O corpo, pra mim, não passa da representação física de algo muito maior (e filosófico): a vida. E dele eu faço o que eu bem entender. Eu tenho certeza (por já ter passado por isso) que ter engordado novamente me gera muito mais aborrecimentos (no sentido de as pessoas me aborrecerem com isso, me questionarem, denotarem uma fraqueza em mim) do que quando assumi publicamente ter tomado certo anabolizante, apenas para acelerar o processo de obtenção do corpo perfeito. E, migos, isso tá ERRADO. A máxima "meu corpo, minhas regras" tem que transcender a genitália e subir pra barriga (mas sem orbitar no umbigo), incendiar a pele e chamuscar até o último fio de cabelo. Eu tenho que poder entrar numa lanchonete e pedir um hamburger às nove da manhã sem olhos macabros sobre os dígitos que aparecem em minha balança - que vestem uma máscara de preocupação, de afeto, de amor.
Porque o que mata não é a gordura. É a caça às bruxas que se promove contra ela (descobri que tinha duas fatias de pizza no microondas. Joguei mostarda e estou comendo enquanto aperto o botão "publicar").
Cinco postagens sobre emagrecimento. Cinco. Da página G (de onde eu não espero nada de edificante, anyway) a um aparelho milagroso que transforma a gordura abdominal em bateria para o celular (enquanto queima a gordura, diz a publicidade), todas as postagens enalteciam o corpo magro. Revi a origem das publicações para saber de onde vinham, e nenhuma página era relacionada a fitness.
Porque i've been there, done that. Quem me acompanha sabe que eu passei dois anos frequentando academia e com alimentação bastante restrita, até que eu alcancei o manequim 38, a camisa P, suava menos e era muito mais passável aos olhos do júri social. Adoraria ter medido a diferença em likes do Tinder, mas eu não dispunha de tal tecnologia na época. Então, eventualmente, poderiam ser postagens relacionadas a fitness, pero no: duas postagens vinham de amigos, três postagens vinham de página.
Há algum tempo atrás - na época da dieta - escrevi um longo texto justificando que eu havia me libertado dos grilhões estéticos e, naquele momento, eu me proclamava apenas um guardião da boa saúde (escrevo isso enquanto revezo entre coxinhas, quibes e bolinhas de queijo): àquele tempo, eu já não era trouxa pra acreditar na imposição do capital para o corpo perfeito, mas eu fazia aquilo pra manter os exames em dia e soar exemplar para qualquer jaleco-branco que viesse me mensurar.
Mas, em primeiro lugar, nunca estamos livres completamente, não é mesmo? Ao menos, não em se tratando do inconsciente. Vejam: eu ia diariamente à academia, era exposto a corpos esbeltos, a corpos grandes, a corpos suplementados e anabolizados. Nunca comprei uma camisa da Nike para correr porque eu acho um disparate gastar três dígitos em algo no que vou SUAR, mas gostava de estar sempre impecável, apresentável, para os colegas da academia que eu sequer trocava mais de três palavras. Torrava cerca de quatrocentos reais ao mês em suplementos. Cheguei a tomar um "anabolizante levinho", tudo muito estudado, tudo muito bem orientado, "só pra dar um gás". Na saúde é que não foi.
Por vários motivos, que vão desde ter morado praticamente ao lado de um dos meus bares preferidos, até uma mudança repentina, drástica e dramática (como tudo na minha vida), eu promovi um apocalipse no meu corpo (acabaram os salgadinhos, mas penso em abrir a despensa e catar um chocolate de lá) e estou hoje quase com o mesmo corpo que estava antes de iniciar a dieta. Em termpos de peso, porque a postura é outra, afinal, a academia realmente promove essa mudança. Mas já passei por isso antes e certamente daqui a pouco minha postura vai estar novamente a mesma. E eu, bem, eu continuo sendo eu.
Mas saindo da órbita do meu umbigo - este prefácio foi apenas para demonstrar que eu passei pelo que estou falando, o fato é que, dentro do discurso do corpo magro, apenas duas vertentes fundamentais são utilizadas para justificar a exclusão das milhões de pessoas (que são maioria) que não ostentam o corpo perfeito: de um lado, a ditadura do corpo; de outro, a saúde.
A ditadura do corpo não pode vencer. É um argumento raso. Presta apenas a atender ao capital: pessoas magras sentem-se à vontade de comprar mais roupas, logo, consomem mais; essa ordem das coisas se dá, claro, por termos adotada uma vestimenta que é ditada pela moda, que desfila corpos anoréxicos em passarelas que permitem o caimento dito perfeito de qualquer tecido. Quando falamos em inclusão, a moda vem e lança uma modelo plus size que, na verdade, só tem mais bunda. Para os homens, ainda que os termos sejam mais flexíveis (vejam a TENDÊNCIA SEXUAL de agora, o Dad Bod - homens com corpo normal, mas que a barriga não estrapola o limite da "barriguinha de cerveja"), o mundo da moda também é dramático: six-packs enfileirados prometendo ao usuário daquela roupa/marca sucesso afetivo, sexual e profissional. Qualquer pessoa que não esteja dentro destes padrões (ou das exceções que o próprio capital enuncia quando seus padrões entram em colapso), é automaticamente jogada para escanteio, ridicularizada, tratada como sub-humana: incapaz de se relacionar, de ascender profissionalmente, e, em casos mais drásticos, de ser limpa. Não foi Nelson Rodrigues quem falou que a gorda tem varizes e sua azedo?
Mas aí vem a tábua de salvação retórica do padrão hegemônico: a saúde. A medicina, por ser tão cara à humanidade, a zeladora da vida, cujos representantes na terra são pessoas sem doutorado a quem chamamos de doutores, vem e sentencia que devemos ser magros. Colesterol, riscos vasculares, complicações ortopédicas, tudo é utilizado para salvar uma vida gorda e, o mais importante: controlar uma vida gorda.
Não é de hoje que a Medicina controla a vida das pessoas. E quando falo em "vida", não estou falando apenas de seu aspecto material, aquela coisa que acaba com a morte; estou falando sim dos comportamentos, pensamentos, posicionamentos. A medicina é, muito antes do conjunto de práticas para a melhoria da saúde humana, um discurso político. Em um tempo em que mulheres não tinham direito a nada além de casar e ser absolutamente submissas ao marido, o comportamento sexual das mesmas era controlado sob o fundamento da histeria. A loucura, do ramo psiquiátrico, pode simplesmente ser uma vontade de a pessoa não se adequar em nenhuma caixinha que empurramos para ela logo ao nascer. Pessoas transexuais são tidas até hoje pela psiquiatria como pessoas que padecem de transtorno identitário. Tratamentos já foram realizados para extinguir a população negra, promovendo uniões interraciais cuja prole seria menos negra que o seu parent negro. E, num processo contínuo de exclusão e marginalização, a Medicina, muito politicamente, vai determinando quem está apto ou não para uma vida plena.
Então, esse pensamento, esse fundamento da saúde não pode existir. O corpo, pra mim, não passa da representação física de algo muito maior (e filosófico): a vida. E dele eu faço o que eu bem entender. Eu tenho certeza (por já ter passado por isso) que ter engordado novamente me gera muito mais aborrecimentos (no sentido de as pessoas me aborrecerem com isso, me questionarem, denotarem uma fraqueza em mim) do que quando assumi publicamente ter tomado certo anabolizante, apenas para acelerar o processo de obtenção do corpo perfeito. E, migos, isso tá ERRADO. A máxima "meu corpo, minhas regras" tem que transcender a genitália e subir pra barriga (mas sem orbitar no umbigo), incendiar a pele e chamuscar até o último fio de cabelo. Eu tenho que poder entrar numa lanchonete e pedir um hamburger às nove da manhã sem olhos macabros sobre os dígitos que aparecem em minha balança - que vestem uma máscara de preocupação, de afeto, de amor.
Porque o que mata não é a gordura. É a caça às bruxas que se promove contra ela (descobri que tinha duas fatias de pizza no microondas. Joguei mostarda e estou comendo enquanto aperto o botão "publicar").
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quem espera, de tudo cansa.
a procrastinação diária de quem empurra o mundo com a barriga cada vez maior
apenas para tê-la ao redor do próprio umbigo
numa órbita desesperada de quem confia no espaço sideral.
siderado, sigo então.
com todos estes anéis satélites que guiam o GPS do meu sapato batido,
e que assassinam um pouco a aura.
mais lenço no cabelo
mais música no ouvido
mais volumes insuportáveis.
por favor.
a procrastinação diária de quem empurra o mundo com a barriga cada vez maior
apenas para tê-la ao redor do próprio umbigo
numa órbita desesperada de quem confia no espaço sideral.
siderado, sigo então.
com todos estes anéis satélites que guiam o GPS do meu sapato batido,
e que assassinam um pouco a aura.
mais lenço no cabelo
mais música no ouvido
mais volumes insuportáveis.
por favor.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
O zerozero debuta com seu vestido manchado de graxa e com a xota enxarcada deste ego-xote do alto, autoproclamado selfie stick. Que tempos estranhos estes em que a pessoa se distancia de si para proclamar na grande rede sua persona.
O zerozero labuta a la puta mas o dinheiro tá mais curto que a saia-tá-pedindo que é da coleção passada mas tá sempre na moda na latrina dos justiceiros sempre de plantão.
O zerozero labuta a la puta mas o dinheiro tá mais curto que a saia-tá-pedindo que é da coleção passada mas tá sempre na moda na latrina dos justiceiros sempre de plantão.
domingo, 2 de novembro de 2014
Lúcia Café: Da prostituta viciada em café e quiche de ricota com orégano.
Após deitar-me com três de mim, pelo preço vil de uma cantada barata e ilógicos fluidos sobre meu corpo, pego esta xícara vermelha de liquido preto e quente que, em franca substituição ao corpo preto de líquido branco, parece enfim aquecer os grandes lábios - vermelhos, mais ainda pelo batom da vez - que ostento em minha face. Eventualmente, tremo. Talvez seja o pó deste café, tão pouco moído que a droga em si se torna tão eficaz. Mas talvez seja a fraqueza das pernas que ficaram por tanto abertas. Visitas ao colo de meu útero, enquanto eu cavalgava em um colo sem nome, sem telefone, sem cartão de visitas, sem sabor, meu labor. Labor sem sabor que garante uma bolsa Prada falsificada, que garante um curso de inglês, cheap, numa ONG qualquer (pois busco a ascensão), que me garante o maquilagem vagabunda com a qual estouro minha pele.
Ou o que estoura minha pele não seja necessariamente a maquilagem, ou o pó, sempre compacto em tempos de minguadas carteiras, ou ainda compacto em tempos de "é bom ter alguma noção da realidade". Talvez seja aquele velho amor do filme de ontem, aquele clima tão estranho, embalado por aquela trilha sonora que provavelmente tocaria em meu prostíbulo - meu lar. A cada dentada em meu integral quiche de ricota com orégano, duas gargalhadas chorosas pela protagonista (não lembro o nome da atriz, quiçá sei) que sempre termina com o seu anti-príncipe encantado: um homem robusto, machista ao extremo, com piadas sarcásticas e um volume considerável em suas calças caras. Mas o bolo alimentar de minha saliva, massa, ricota e orégano, sem um café para ajudar a deglutir, parece ficar preso em minha garganta. O que tenho além de vários homens robustos, machistas ao extremo, com volumes sarcásticos e piadas consideráveis em seus velhos jeans rasgados?
Não sei se, por prudência ou desespero, saio da sala de cinema com minha microssaia de napa, uma bolsinha baguete antepenúltima moda, scarpin de oncinha com o salto um tanto gasto (mais gasto que eu, talvez), uma camisetinha livre, leve e solta, jogando o ar pesado de minha maquiagem puta-gótica para todos os lados, procurando, quem sabe, um grande amor, quem sabe, um cliente fixo, quem sabe, uma aventurinha. Chego a rogar, diante do espelho, pela graça da cruz de cristo em detrimento da desgraça da cruz de sífilis. Sou limpa, amém, mas a cada visita íntima, a cada acompanhamento bem-de-perto-tão-perto-que-é-dentro, penso quão mais limpo seria o véu da grinalda que, muito antagonicamente, eu ostentaria em uma igreja na qual eu pudesse pisar sem ser apedrejada. Na lanchonete no cinema, peço por um pacote de pipoca e uma xícara de café - tudo o que minhas economias podem pagar neste fim de mês. Tiro, com a ponta de meus dois dedos, mostrando o esmalte vermelho - vermelho-puta, porque trabalhamos com o exagero - o chiclé que eu estava mascando há dois dias. Derramo uma dose generosa de sal sobre a pipoca e outra nem tão generosa de açúcar no meu café. Derramo uma gota de lágrima e enxugo, não menos desesperadamente, o suor de minha testa que comprometeria o blush, o falso glamour, a esperança por boas notícias e a clientela da noite.
Acima do misto do cheiro do café, da manteiga, de meu desodorante quase vencido e de minha alma quase vendida, um amadeirado perfume toma conta da lanchonete, que pareceu perder todas aquelas cores berrantes diante do verde dos olhos do doutor que, em seu mocassim engraxado com dignidade (provavelmente de outros), pede, com voz grossa, um capuccino e uma água com gás (conta total: o dobro da minha, paga com uma nota de cinquenta, que voou displicentemente pelo balcão amarelo). Um frio e distante (mas, ainda assim, com um toque de menino que quer abocanhar algum doce) "Olá, boa noite" ecoou por todo aquele espaço geográfico e pelo espaço sideral que preenche minha cabeça oca. Já pensava eu em escrever o número de meu celular sem créditos em um guardanapo colorido qualquer, com meu batom, ou em indicar em quais orelhões daquelas redondezas eu apus o meu número. "Lúcia Café, negra, quente e pronta pra ser servida em sua xícara do amor". Do rápido diálogo dos meus olhos negros e sujos com aqueles cândidos e límpidos olhos verdes, formou-se um épico que poderia ser chamado pelos poetas de esmeralda empoeirada. Não teria eu forças para esticar minha microssaia para limpar a pedra preciosa; tampouco ele se incomodaria em sujar seu paletó - salvo se o jogasse no chão quando, por um trocado qualquer, me contratasse por aquela noite que sequer havia começado (para mim).
- A senhora (ou senhorita? ou vagabunda?) possui um jeito bastante peculiar de se vestir, ainda mais para um ambiente como este.
Logo pensei: "veado". Logo pensei: "padre trabalhando em minha conversão". Logo pensei: "não seria nada mau alguém para cuidar desta cabeleira". Logo pensei: "a conversão não seria nada mal, afinal a busco". Logo, não pensei em nada e apenas respondi:
- É o calor, não é mesmo?
- Sim, está bastante quente por aqui.
- O quão quente está? (com um olhar sacana, profano, convidativo e necessitado de dinheiro para outro café)
- Quente o suficiente para tirar este paletó e te pagar outro café.
- Aceito o café, mas não pense o senhor que ficará nisto.
- Ora, mas que ousadia, gosto de jovens assim, tão diretas.
- Não sou jovem, mas sou ousada.
- Beba seu café.
- Sou mais cara que um café.
- Creio nisto.
- Sei falar inglês e tenho roupas mais comportadas.
- Poderia ter usado uma roupa mais comportada hoje, não?
- Mas aí não estaria conversando com o senhor.
- Não me chame de senhor, trate-me como você.
- Te tratar como a mim? Não tenho dinheiro para tanto (embora "você" seja bem atraente). E também não trabalho com trocas de favores.
- Como trabalhar com troca de favores? Como trabalhar?
- Danço no escuro.
- Você está no escuro agora?
- Não, aqui está claro.
- Sim, bem claro.
- Bem claro que o senhor, ou você, enfim, esteja brincando com a minha cara e tenho que ir trabalhar.
- Como trabalhar?
- Danço no escuro.
- Mas aqui está claro... e claro que quero te conhecer. Diga, qual seu preço?
- Depende do serviço.
- Algo com a boca.
- Barato. Cobro pelo tamanho.
- Mas aí ficaria caro.
- Caro? É tanto assim?
- Sim, quero de sua boca as palavras de uma conversa grande o suficiente para te fazer...
- Fazer? Gozar?
- Talvez.
- Não gozaria com palavras.
- Mas gozaria de alguma felicidade.
- Não há felicidade na degradação.
- E qual o seu preço?
- Calcule o valor da reconstrução de minha personalidade. Subtraia algo do ambiente de vergonha no qual me insiro e multiplique pela glória da saída do submundo. Some o desgosto da exploração física. Tire o quociente e os dividendos de meus olhos que lacrimejam. Faça a raiz quadrada da igreja que eu não posso entrar, da sociedade que me marginaliza, do governo que não me dá assistência e dos pais que não me aceitam. Jogue o resultado nesta xícara e beba de uma vez só, deliciando-se com o sabor amargo de ser Lúcia Café.
Quem deve te pagar algo aqui sou eu.
E simplesmente saí. Deixei, pela primeira vez, o café quente pela metade e fui atrás de algum lugar em que meu celular finalmente tivesse sinal. Três mensagens da cafetina dizendo que existem clientes me esperando e não deveria ter saído por tanto tempo. Coitadinha, vagabunda, desavergonhada: lá vou eu, com meu corpo, comprar mais um quilo de pó. De café.
Ou o que estoura minha pele não seja necessariamente a maquilagem, ou o pó, sempre compacto em tempos de minguadas carteiras, ou ainda compacto em tempos de "é bom ter alguma noção da realidade". Talvez seja aquele velho amor do filme de ontem, aquele clima tão estranho, embalado por aquela trilha sonora que provavelmente tocaria em meu prostíbulo - meu lar. A cada dentada em meu integral quiche de ricota com orégano, duas gargalhadas chorosas pela protagonista (não lembro o nome da atriz, quiçá sei) que sempre termina com o seu anti-príncipe encantado: um homem robusto, machista ao extremo, com piadas sarcásticas e um volume considerável em suas calças caras. Mas o bolo alimentar de minha saliva, massa, ricota e orégano, sem um café para ajudar a deglutir, parece ficar preso em minha garganta. O que tenho além de vários homens robustos, machistas ao extremo, com volumes sarcásticos e piadas consideráveis em seus velhos jeans rasgados?
Não sei se, por prudência ou desespero, saio da sala de cinema com minha microssaia de napa, uma bolsinha baguete antepenúltima moda, scarpin de oncinha com o salto um tanto gasto (mais gasto que eu, talvez), uma camisetinha livre, leve e solta, jogando o ar pesado de minha maquiagem puta-gótica para todos os lados, procurando, quem sabe, um grande amor, quem sabe, um cliente fixo, quem sabe, uma aventurinha. Chego a rogar, diante do espelho, pela graça da cruz de cristo em detrimento da desgraça da cruz de sífilis. Sou limpa, amém, mas a cada visita íntima, a cada acompanhamento bem-de-perto-tão-perto-que-é-dentro, penso quão mais limpo seria o véu da grinalda que, muito antagonicamente, eu ostentaria em uma igreja na qual eu pudesse pisar sem ser apedrejada. Na lanchonete no cinema, peço por um pacote de pipoca e uma xícara de café - tudo o que minhas economias podem pagar neste fim de mês. Tiro, com a ponta de meus dois dedos, mostrando o esmalte vermelho - vermelho-puta, porque trabalhamos com o exagero - o chiclé que eu estava mascando há dois dias. Derramo uma dose generosa de sal sobre a pipoca e outra nem tão generosa de açúcar no meu café. Derramo uma gota de lágrima e enxugo, não menos desesperadamente, o suor de minha testa que comprometeria o blush, o falso glamour, a esperança por boas notícias e a clientela da noite.
Acima do misto do cheiro do café, da manteiga, de meu desodorante quase vencido e de minha alma quase vendida, um amadeirado perfume toma conta da lanchonete, que pareceu perder todas aquelas cores berrantes diante do verde dos olhos do doutor que, em seu mocassim engraxado com dignidade (provavelmente de outros), pede, com voz grossa, um capuccino e uma água com gás (conta total: o dobro da minha, paga com uma nota de cinquenta, que voou displicentemente pelo balcão amarelo). Um frio e distante (mas, ainda assim, com um toque de menino que quer abocanhar algum doce) "Olá, boa noite" ecoou por todo aquele espaço geográfico e pelo espaço sideral que preenche minha cabeça oca. Já pensava eu em escrever o número de meu celular sem créditos em um guardanapo colorido qualquer, com meu batom, ou em indicar em quais orelhões daquelas redondezas eu apus o meu número. "Lúcia Café, negra, quente e pronta pra ser servida em sua xícara do amor". Do rápido diálogo dos meus olhos negros e sujos com aqueles cândidos e límpidos olhos verdes, formou-se um épico que poderia ser chamado pelos poetas de esmeralda empoeirada. Não teria eu forças para esticar minha microssaia para limpar a pedra preciosa; tampouco ele se incomodaria em sujar seu paletó - salvo se o jogasse no chão quando, por um trocado qualquer, me contratasse por aquela noite que sequer havia começado (para mim).
- A senhora (ou senhorita? ou vagabunda?) possui um jeito bastante peculiar de se vestir, ainda mais para um ambiente como este.
Logo pensei: "veado". Logo pensei: "padre trabalhando em minha conversão". Logo pensei: "não seria nada mau alguém para cuidar desta cabeleira". Logo pensei: "a conversão não seria nada mal, afinal a busco". Logo, não pensei em nada e apenas respondi:
- É o calor, não é mesmo?
- Sim, está bastante quente por aqui.
- O quão quente está? (com um olhar sacana, profano, convidativo e necessitado de dinheiro para outro café)
- Quente o suficiente para tirar este paletó e te pagar outro café.
- Aceito o café, mas não pense o senhor que ficará nisto.
- Ora, mas que ousadia, gosto de jovens assim, tão diretas.
- Não sou jovem, mas sou ousada.
- Beba seu café.
- Sou mais cara que um café.
- Creio nisto.
- Sei falar inglês e tenho roupas mais comportadas.
- Poderia ter usado uma roupa mais comportada hoje, não?
- Mas aí não estaria conversando com o senhor.
- Não me chame de senhor, trate-me como você.
- Te tratar como a mim? Não tenho dinheiro para tanto (embora "você" seja bem atraente). E também não trabalho com trocas de favores.
- Como trabalhar com troca de favores? Como trabalhar?
- Danço no escuro.
- Você está no escuro agora?
- Não, aqui está claro.
- Sim, bem claro.
- Bem claro que o senhor, ou você, enfim, esteja brincando com a minha cara e tenho que ir trabalhar.
- Como trabalhar?
- Danço no escuro.
- Mas aqui está claro... e claro que quero te conhecer. Diga, qual seu preço?
- Depende do serviço.
- Algo com a boca.
- Barato. Cobro pelo tamanho.
- Mas aí ficaria caro.
- Caro? É tanto assim?
- Sim, quero de sua boca as palavras de uma conversa grande o suficiente para te fazer...
- Fazer? Gozar?
- Talvez.
- Não gozaria com palavras.
- Mas gozaria de alguma felicidade.
- Não há felicidade na degradação.
- E qual o seu preço?
- Calcule o valor da reconstrução de minha personalidade. Subtraia algo do ambiente de vergonha no qual me insiro e multiplique pela glória da saída do submundo. Some o desgosto da exploração física. Tire o quociente e os dividendos de meus olhos que lacrimejam. Faça a raiz quadrada da igreja que eu não posso entrar, da sociedade que me marginaliza, do governo que não me dá assistência e dos pais que não me aceitam. Jogue o resultado nesta xícara e beba de uma vez só, deliciando-se com o sabor amargo de ser Lúcia Café.
Quem deve te pagar algo aqui sou eu.
E simplesmente saí. Deixei, pela primeira vez, o café quente pela metade e fui atrás de algum lugar em que meu celular finalmente tivesse sinal. Três mensagens da cafetina dizendo que existem clientes me esperando e não deveria ter saído por tanto tempo. Coitadinha, vagabunda, desavergonhada: lá vou eu, com meu corpo, comprar mais um quilo de pó. De café.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
São Eu
Embora eu tenha tentado me esquivar dos discursos, a ponto de querer lançar um manifesto do não-discurso com/em meu próprio corpo, nunca consigo deixar de analisar pontos específicos de um eu-fragmentado, cujas memórias estão esparsas dentro deste disco rígido que, de tanto ligar e desligar no curto-circuito cotidiano, chegou ao ponto de estar, mais do que nunca, flexível. Rígido e flexível, com o perdão do paradoxo, mas firme em determinados propósitos - entre eles, e talvez o mais importante, de ser mais maleável com as coisas. Porque, no ponto em que me encontro agora, a água que tanto bate, fura. E, assim reconhecendo-me, percebo que não há necessidade de furar; posso, simplesmente, absorver e ficar maior.
Este, inclusive, é o exercício do momento. Pegar tudo aquilo que o discurso diário me ensina a repelir em nome de uma rigidez (e higidez) física e emocional, assimilar e metamoforsear-me em algo maior. Cheio de enxertos, é verdade. Certamente os galhos que sairão de minha têmpora não corresponderão às raízes da sola calejada dos meus pés. E, sinceramente, eu nem quero essa pureza genética. Ter um siso com três raízes deveria ter sido suficiente para eu perceber que aquilo que eu estou destinado a ser não me agrada nem um pouco. Talvez, se eu tivesse percebido isto a tempo, eu não estaria perdendo sistematicamente minhas três fileiras de dentes em nome do descaso e ao descaso do tempo. São quase trinta. E está tudo errado, se considerarmos, claro, o destino discursivo.
Mas, como diz um grande amigo, a verdade é que eu não estou trocando moedas e, se fôssemos falar em parcas tecendo algum destino, meu destino não seria o que hoje é meu presente. Justamente por eu ter me permitido acordar Gregor Samsa num quarto escuro e solitário (que hoje eu chamo de descontrole psicoemocional), saí borboleta por algumas janelas e estou voando quase sem... destino. Name the place, and i'll be there. Mas não me deixe placas, porque não sou muito bom em seguir direções. Não presto atenção no nome das ruas. E nem das pessoas. Afinal, eu não esqueci alguns nomes no meio do caminho?
Assim sendo, ao menos hoje, em que notei uma vontade até então estranha de encarar as pessoas e saber que lá fora tinha um sol mais ou menos brando (mas não menos irritante), com toda uma lista de afazeres e, pasmem, marquei todos eles com a mesma canetinha rosa de sempre, quase tive a certeza que as coisas estão mais ou menos nos eixos que eu quero que estas mesmas coisas estejam. Talvez, de certa forma, seja só uma ilusão. Mas, se não fosse por elas, eu não estaria aqui perdendo horas de sono e vomitando verbetes que podem não fazer muito sentido para você, interlocutor, mas, ao mesmo tempo, têm tudo a ver com você. Ainda mais se considerarmos que eu sempre falo com o espelho. Falo, gesticulo, e, com um pouco de sorte, não acumulo mais sete anos de azar. Não, hoje eu não ia depositar estes fundos na poupança do desespero. Porque hoje, ao menos hoje, eu estou pretendendo tecer meus des(a)tinos em escala industrial. Escravizando o desajuste e lucrando com ele. Aprendendo com alguns erros e ressurgindo nu entre uma pedra ou sob alguma concha.
Não importa.
Este, inclusive, é o exercício do momento. Pegar tudo aquilo que o discurso diário me ensina a repelir em nome de uma rigidez (e higidez) física e emocional, assimilar e metamoforsear-me em algo maior. Cheio de enxertos, é verdade. Certamente os galhos que sairão de minha têmpora não corresponderão às raízes da sola calejada dos meus pés. E, sinceramente, eu nem quero essa pureza genética. Ter um siso com três raízes deveria ter sido suficiente para eu perceber que aquilo que eu estou destinado a ser não me agrada nem um pouco. Talvez, se eu tivesse percebido isto a tempo, eu não estaria perdendo sistematicamente minhas três fileiras de dentes em nome do descaso e ao descaso do tempo. São quase trinta. E está tudo errado, se considerarmos, claro, o destino discursivo.
Mas, como diz um grande amigo, a verdade é que eu não estou trocando moedas e, se fôssemos falar em parcas tecendo algum destino, meu destino não seria o que hoje é meu presente. Justamente por eu ter me permitido acordar Gregor Samsa num quarto escuro e solitário (que hoje eu chamo de descontrole psicoemocional), saí borboleta por algumas janelas e estou voando quase sem... destino. Name the place, and i'll be there. Mas não me deixe placas, porque não sou muito bom em seguir direções. Não presto atenção no nome das ruas. E nem das pessoas. Afinal, eu não esqueci alguns nomes no meio do caminho?
Assim sendo, ao menos hoje, em que notei uma vontade até então estranha de encarar as pessoas e saber que lá fora tinha um sol mais ou menos brando (mas não menos irritante), com toda uma lista de afazeres e, pasmem, marquei todos eles com a mesma canetinha rosa de sempre, quase tive a certeza que as coisas estão mais ou menos nos eixos que eu quero que estas mesmas coisas estejam. Talvez, de certa forma, seja só uma ilusão. Mas, se não fosse por elas, eu não estaria aqui perdendo horas de sono e vomitando verbetes que podem não fazer muito sentido para você, interlocutor, mas, ao mesmo tempo, têm tudo a ver com você. Ainda mais se considerarmos que eu sempre falo com o espelho. Falo, gesticulo, e, com um pouco de sorte, não acumulo mais sete anos de azar. Não, hoje eu não ia depositar estes fundos na poupança do desespero. Porque hoje, ao menos hoje, eu estou pretendendo tecer meus des(a)tinos em escala industrial. Escravizando o desajuste e lucrando com ele. Aprendendo com alguns erros e ressurgindo nu entre uma pedra ou sob alguma concha.
Não importa.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Candelabro.
Nesta sala mofada,
faço meus cabelos voarem enquanto contemplo a solidão.
Na estampa de flores da cadeira,
faço meu corpo elástico nesta dor remitente.
Sob a luz tímida do sol,
Vislumbro os galhos tão trêmulos como este falso chão.
No olhar límpido do ontem,
Desenho um amanhã no sorriso daquele que me faz persistente.
7
7 dias e 7 noites imerso no mais impuro eu.
Rastejando-me entre memórias irritantes e planos de um talvez depois de amanhã.
Fazer com que este novembro mate o monstro criado em outros onzes
E
Tal qual a inocência da menina,
voltar a ser o melhor dançarino deste espaço vazio.
voltar a ser eu mesmo.
Mesmo
que por um instante, não desistir para existir.
Resistir para reexistir.
faço meus cabelos voarem enquanto contemplo a solidão.
Na estampa de flores da cadeira,
faço meu corpo elástico nesta dor remitente.
Sob a luz tímida do sol,
Vislumbro os galhos tão trêmulos como este falso chão.
No olhar límpido do ontem,
Desenho um amanhã no sorriso daquele que me faz persistente.
7
7 dias e 7 noites imerso no mais impuro eu.
Rastejando-me entre memórias irritantes e planos de um talvez depois de amanhã.
Fazer com que este novembro mate o monstro criado em outros onzes
E
Tal qual a inocência da menina,
voltar a ser o melhor dançarino deste espaço vazio.
voltar a ser eu mesmo.
Mesmo
que por um instante, não desistir para existir.
Resistir para reexistir.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Ser e estar. Ser ao estar. Estar sendo. Não sendo.
All revolutions are impossible until they happen, then they become inevitable.
Uma queixa recorrente no meu relacionamento é que ele perdia muito tempo lendo. Talvez fosse muito mais uma manifestação da minha carência latente do que desapego à leitura. Afinal, eu lia. Mas, além de a leitura ser outra, eu sou mais do tipo audiovisual: leitura, apenas as legendas. Ou textos rápidos. 144 caracteres e eu sabia tudo. E vociferava em tweets desajeitados, todas as angústias do ser e estar (e do ser ao estar e do estar sendo ou não sendo).
Mas a verdade é que eu nada sabia. E, se não sabia, não comunicava com verdade. Ou, se com verdade, talvez ali não houvesse qualidade. Talvez, culpa da tenra idade. Mental. E física.
Agora que as rugas chegaram de vez e o nariz sofre o peso da gravidade, a grave idade deste retorno de saturno no qual não necessariamente acredito, mas os sintomas estão aí e astrologia é um ótimo adorno para qualquer texto, o fato é que eu precisei abrir livros. E a ansiedade da rapidez se tornou a ansiedade de não ser, para usar a palavra da moda, leviano. Fashion grammar police, e não há polícia que pacifique o não-saber. Ou o saber pouco. Mas sempre o saber-nunca-o-suficiente. Porque nunca é suficiente saber.
De histórias a corpos, me sensibilizei por uma causa que eu acreditava ser sensível desde os idos dos anos 2000, quando eu ainda cheirava rosas mortas e quando nós éramos a juventude. Baba, baby - olha o que perdeu. Baba, baby - a criança cresceu. Cresceu e ficou intolerante. Pirracenta. Manhosa. E a criança hoje enrugada não tem paciência para meios termos. Invoco então o apocalipse para bradar que os mornos serão vomitados. Nego terminantemente o modus operandi de um mundo que não guarda coerência em seu discurso. E aqui temos umas quinze doses de intolerância diárias, engolidas como comprimidos sem horários. E eu processo, processo, processo, mas não tenho muito saco para processos. Daí vem a primeira fonte de ansiedade: não mais quem sou eu, mas o que faço eu. Talvez eu esteja fazendo tanto, e polegares em riste sempre são mais agradáveis do que indicadores ameaçadores. E, no meio de uma coleção infinita de corações pixelizados, há sempre aquela vontade de fazer mais.
Aí caiu no meu colo a chance de fazer mais. Parecia muito bom. Mas, com o tempo, veio a parábola de que eu não posso acreditar que o carboidrato seja o meu melhor amigo a uma hora da manhã - é uma relação que pode até dar algum prazer, mas, depois de algum tempo, a azia e o gosto ruim na boca tomam corpo. E é um corpo corporativo, um corpo raso, um corpo que não faz sentido a não ser o incrível enaltecimento de egos cinzas cobertos por uma bandeira colorida que nada diz. Ao menos, não pra mim. E se eu contesto a corporação, é porque eu detesto como os corpos são formados em discurso. Os desvios são maravilhosos e é neles que eu quero repousar. Quero louvar o sinistro, quero me aconchegar nos braços de Satã, quero acordar naquele meio-fio meia-arrastão sinceramente nu e crudelíssimo em seu calor insuportável. Quero esse sangue cosmético escorrendo pela minha boca e os meus olhos roxos de canetinha hidrográfica. E com a mesma caneta, quero desenhar uma rua diferente, uma rua onde os miseráveis estejam do meu lado e que possamos hastear o estandarte roto das nossas imperfeições.
Mas de todas as imperfeições, eu descarto a contradição.
E na contradição de hoje, talvez haja uma boa dose de adição nestas substâncias confortáveis. É muito fácil ser a estrela de um show encenado sobre o estofado de uma cadeira cara. Por que não colocar os pés calejados para correr no asfalto quente e chorar lágrimas artificiais com quem em princípio, é a abertura de uma nova estrada? Por que não transportar as palavras desta folha branca e fria para os megafones? Que medo é este de pintar minha cara? Que medo é este de derrubar conveniências? É a antiga paixão pelo sofrimento, que transfigurou-se da tática adolescente "coloque uma música triste e sofra" para um método mais do tipo "corroa-se com as dissonâncias alheias e não faça nada para mudá-las"? Inegavelmente, é um ar muito mais tóxico que eu respiro. E, prestes a enlouquecer, se eu ficar preso entre as quatro paredes de sempre, vou me sufocar.
Preciso ganhar o mundo.
One of the things that's happened, is that this movement has acquired an air of inevitability.
domingo, 31 de agosto de 2014
Divergente
Imagem retirada do Facebook da ativista feminista Heloisa Melino, com edição de Nina Moraes.
Eu gosto dos meandros da sincronicidade. Quem me conhece, sabe que eu sou aficionado por esta literatura infanto-juvenil que vira filme em Hollywood e a indústria deveria ter medo da merda que está fazendo. Não, não estou falando de 50 tons de cinza e sadomasô de mentirinha. Nem a meia dúzia de filmes românticos que brotam todos os anos nas telonas vomitando em cima de todo mundo uma versão moderninha do príncipe encantado. É bom, inclusive falar em príncipe encantado: o que eu pretendo falar versa justamente sobre tudo estar centrado na imagem do homem.
Hoje eu vi, finalmente, o filme Divergent. E, na mesma linha que a coleção Jogos Vorazes, que já virou filme, e a coleção Feios, que, infelizmente, ainda não teve sua adaptação cinematográfica (e deveria), Divergent tem um conteúdo político fascinante (e, sejamos verdadeiros, repetitivo): um mundo pós-apocalíptico em que pessoas são categorizadas, separadas em grupos que cumprem suas devidas funções, e não enchem o saco do governo. Aliás, como é óbvio, é o Estado que faz essa função. Se em Jogos Vorazes as pessoas são separadas geograficamente em 13 distritos, cada um com suas expertises previamente definidas pelo controle estatal, em Divergent eles dividem o mesmo território, porém, divididos em cinco facções - cada uma, obviamente, com uma área de atuação.
E então temos, em ambos os jogos, a protagonista: sim, uma mulher. Uma heroína, que consegue vislumbrar no esquema financiado pelo Estado a crueldade ínsita do Leviatã pós-apocalíptico. Uma heroína que é interpelada a "escolher quem ela é de verdade, não porque os outros querem, mas porque a escolha conduzirá aonde ela pertence". A partir daí, ela larga sua facção de origem (e sua família - facção acima do sangue) e passa a prestar serviços ao Estado em sua facção de destino.
A partir daí, é muito tiro porrada e bomba, até que o Estado (contém spoiler) anuncia: Divergents threaten that system. Don’t get me wrong, there’s a certain beauty in your resistance. Your defiance of categorization. But it’s a beauty we can’t afford. (Divergentes ameaçam o sistema. Não me entenda mal, há uma certa beleza em sua resistência. A desobediência à categorização. Mas é uma beleza que nós não podemos permitir".
Talvez eu esteja lendo muito sobre Teoria Queer, mas é impossível ouvir uma frase como a acima e não refletir sobre como somos diuturnamente colocados em prateleiras - e, apesar de supostamente sermos agraciados com alguma dose de autonomia da vontade, nossa mobilidade não é real.
E então minha reflexão poderia ter parado aí. Mas abri o Facebook enquanto fumava meu último cigarro e vi a foto que ilustra esse post, publicada pela Heloisa Melino, acompanhado do texto abaixo:
Assim.. eu achei SUPER engraçada a história do "só tem bicha nessa cidade" e entendo o contexto (antes que me apedrejem). Entendo também, no entanto, que é muito sintomático que nos dias/semana da visibilidade LÉSBICA tenha pipocado e ainda esteja pipocando a visibilidade BICHA (junto, claro, da INvisibilidade Trans e da invisibilidade lésbica cis ou trans). Essa foto é antiga, mas pedi pra amiga que ahaza no photoshop, a Nina Moraes pra repaginar e fazer um contraponto pra afirmar que, não só bicha, mas SÓ TEM SAPATÃ NESSA CIDADE.
Não sei exatamente quando a história do "só tem bicha nessa cidade" foi efetivamente publicada (lembre da história aqui). Mas a buemba caiu no meu colo no dia 29 de agosto, que vem a ser, ironicamente, o Dia da Visibilidade Lésbica. Digo ironicamente pois, em uma sociedade centrada na figura do homem, a internet em peso fez uma campanha com a hashtag #sótembichanessacidade. E se falou de bicha o dia inteiro. E bicha aqui e bicha ali.
Claro que um lado meu, militante, e cada vez mais interessado pela literatura queer, achou muito legal ver os gays assumindo o termo bicha e subvertendo-o. Porém, convenhamos que tínhamos 364 outros dias no ano para isso. Mas, como eu disse no início do texto que eu gosto dos meandros da sincronicidade, eu vou evitar cair no pensamento de que isso foi uma forma consciente de abafar o dia da Visibilidade Lésbica.
Eu disse conscientemente.
Porque, a verdade é que, diariamente, não há igualdade de vozes dentro do movimento LGBT (e você, leitor, pode se sentir bastante confortável de inserir as letras que bem entender aqui). Aliás, é importante lembrar que o L passou à frente da ex-sigla GLBT justamente para dar voz ao movimento de mulheres - afinal, se você localiza topograficamente uma letra antes da outra, por mais que acreditemos na horizontalidade do movimento, a verdade é que, implicitamente, você está construindo uma hierarquia. E, se estamos travando uma batalha por uma Igualdade que se pretenda real, você tem de dar mais oportunidade àqueles que estão em um nível mais profundo de desigualdade. Logo, não se trata de uma simples mudança de posição das letras - é conceitual, e eu concordo plenamente.
Claro, se tentarmos fazer uma genealogia do motivo que faz com que a letra L tenha vindo à frente, poderíamos tirar da conta do movimento LGBT e trabalhar apenas com as distorções historicamente criadas entre os gêneros masculino e feminino. A nossa sociedade foi construída com base na ideia da superioridade masculina. O problema é que esta questão entra no movimento LGBT e o contamina: se você virar para uma pessoa "média" e falar a palavra "gay", ela vai remeter imediatamente a dois homens - muito embora o termo gay se refira tanto a homens quanto a mulheres. Quando você fala em casamento entre pessoas do mesmo sexo, grande parte das imagens que circulam na internet é de dois homens. Eu sugiro o exercício de buscar por "casamento gay" no Google Images: minha pesquisa retornou oito casais masculinos contra apenas dois femininos. Se você vai até à mídia para fazer a mesma investigação, você vai se lembrar que a grande parte dos personagens homossexuais são... homens. A própria celeuma com o beijo gay se deu num beijo protagonizado por dois homens e, vejam só, quando o beijo foi entre duas mulheres, a comoção social foi infinitamente menor.
E aí temos as seguintes opções: 1) falar que "a culpa é da sociedade centrada no homem"; 2) falar que "não, é impressão minha, isso não existe, e, ah, se não tem tanto preconceito assim com lésbicas, é porque elas estão mais naturalizadas na sociedade".
Se você escolheu a opção 2, queridx, você está apenas escolhendo a opção 1, só que está mais contaminadx com a ideologia histórica: lésbicas estão supostamente mais naturalizadas porque elas foram transformadas em fetiche masculino - e, como estão servindo ao deleite do homem, logo, é um casal mais, digamos, "aceitável".
E falar em estar "naturalizado" e "ser aceitável" é cruel, porque você está chamando x coleguinha ao lado de anti-natural e inaceitável. E eu escolhi os termos de propósito.
O convite deste texto não é para deixar de debater uma notícia que, infelizmente, teve a grande divulgação nas redes sociais num dia em que se deveria estar problematizando o papel da lésbica dentro da sociedade (e até mesmo dentro do movimento). O convite é para o movimento deixar de se centrar no homem. Já que a notícia foi publicada, nós perdemos uma grande oportunidade de levar diversas questões à discussão.
O movimento GGGG (sim: de GAY GAY GAY GAY) foi egoísta, sim, por ter feito um grande carnaval sobre o #sótembichanessacidade e não ter problematizado a questão das outras letras do movimento LGBT.
O movimento GGGG foi estúpido e cruel por ter levado apenas a palavra bicha em consideração. Entendo que tenha sido a frase utilizada pelo senhorzinho-homofóbico-na-fila-do-Bobs, mas, se preciso lembrar a todxs, a primeira ofensa foi disparada contra x atendente transexual. Mas, obviamente, o senhorzinho-homofóbico-na-fila-do-Bobs foi preso por desacatar uma autoridade abertamente homossexual. Em suma, o senhorzinho-homofóbico-na-fila-do-Bobs foi apenas homofóbico: ele não foi transfóbico - que é um problema social completamente diferente, com outras implicações - a começar pelo óbvio: a homofobia trabalha com a orientação sexual; a transfobia trabalha com a identidade de gênero.
O movimento GGGG é formado por homens.
Então guardemos alguma coerência entre nossos CDs da Lady Gaga escondidos na gaveta de jockstraps: se não queremos ser vítimas de homofobia, não sejamos machistas.
sábado, 30 de agosto de 2014
Ainda dá tempo? Sobre Marina no Jornal Nacional: uma reflexão.
Eu pretendo ser breve, porque estou correndo sérios riscos de ser chamado de ANTIMARINA daqui a pouco. Na verdade, eu tinha até em mente o que eu ia falar - apenas uma reflexão sobre a entrevista que Marina Silva concedeu ao Jornal Nacional no último dia 27. E eu queria exemplificar com o vídeo mas, corroborando o meu texto anterior AND a mancada que ela deu com a questão LGBT no programa de governo dela (leia aqui), vou ter de estender um pouco mais.
1º - A meu entender, a entrevista da Marina não serviu para ela falar muito e falar bem sobre o programa de governo dela. Não. Aquilo foi uma performance para mostrar para o brasileiro o quanto ela é supostamente mais firme como a Dilma. Afinal, ela é uma mulher negra acreana e, supostamente, tem muito o que provar para a sociedade. Na entrevista da Dilma, ela foi silenciada o tempo inteiro pelo Bonner e pela Poeta. Já Marina Silva falou muitos nadas e obrigou a dupla de jornalistas a aceitarem que ela queria falar. O "a senhora tem um minuto e meio para expor seus projetos" foi CONSTRANGEDOR. Tem um quê argumentativo muito sério nesse vídeo, que vai muito além da oportunidade de criar um MARINEITOR - ela falou muito e, melhor: falou - coisa que a Dilma não conseguiu fazer (por pressão da Globo, e não por falta de competência dela, obviamente). Mas, muito mais que expor as ideias políticas, as entrevistas são um grande teatro para angariar eleitores. Não se esqueçam isso.
2º - TODOS os vídeos da entrevista da Marina no Jornal Nacional foram excluídos do Youtube. Pode ser questão de direitos autorais? Claro. Mas tem a entrevistas de outros candidatos no ar. Estranho?
3º - Gente, pelo amor de Deus. Parem de mendigar casamento. Sério. Olhem o histórico de avanços do movimento LGBT nos últimos 12 anos (que inclui o casamento, btw) e parem de acreditar nas promessas da Marina. Ela está completamente imbricada a grandes personalidades religiosas e ela NÃO. VAI. ROMPER. POLITICAMENTE. COM. ESTAS. PESSOAS. Fim.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
6 am
O tiro de festim não saiu pela culatra
Muito estardalhaço para pouco estilhaço
Eu quero cacos de vidro neste fuso desajeitado
E, com a luz do sol, fazer um caleidoscópio de sua frustração.
Eu realmente não me importo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Hello Kitty e o controle dos corpos.
Uma das crenças mais importantes de toda a humanidade acaba de cair: Hello Kitty é um ser humano, e não um gatinho, como todo mundo cresceu acreditando (inclusive a Avril Lavigne, aparentemente, com o seu indecoroso MEOW aos 2:30' dessa música estúpida, mas que serve de trilha sonora para esse texto). Percebi uma certa comoção no Facebook hoje e, claro, eu tinha que pensar muito além do que a divulgação dessa notícia poderia predizer. Portanto, vou me dar o direito de escrever algumas linhas sobre algo que eu sequer confio (por que, francamente, quem consegue lidar com um personagem que não tem boca?)
O que me intriga não é a declaração bombástica da Sanrio, empresa criadora da personagem. Na verdade, eu posso falar claramente que estou pouco me lixando para o fato de Hello Kitty ser uma menininha*, e não um gato, uma centopeia ou um dinossauro. O que, aliás, deveria ser a saída mais adequada para quando lidamos com aquilo que desconhecemos ou que, por qualquer motivo, nos causa estranheza.
A matéria que linkei acima fala que "Contrariando o consenso de toda uma geração, a mundialmente conhecida personagem Hello Kitty não é um gato, mas uma menina". E daí eu me questiono: quem foi que deu autoridade para toda uma geração negar a natureza humana da personagem e relegá-la ao papel de mero bicho de estimação?
Ah, por que ela tem bigode?
Por que a orelha dela é pontuda?
Por que ela é branca e passa a impressão de ser felpuda?
Ou seria porque ela simplesmente não se enquadra dentro da nossa visão média de... ser humano?
Pode parecer brincadeira, mas a questão é bastante séria. É séria, e tem gente se debruçando de verdade numa atividade de desconstrução de determinados padrões (e um livro interessante que estou lendo sobre o tema pode ser encontrado neste link). Porque, sabemos, a mesma concepção do "ser humano" que nós temos hoje e que nos autoriza a desacreditar a Hello Kitty enquanto ser humano, é a concepção que autoriza toda a coletividade a rejeitar o reconhecimento de, por exemplo, transexuais, nos gêneros em que eles, psicologicamente, se veem. E, por favor, não diminuam este fato: estou falando de milhares de transexuais, travestis, e quaisquer outras pessoas que não se enquadram no binarismo de gênero (homem x mulher) que são impedidas de fazerem as coisas mais simples do mundo, como, por exemplo, frequentar um banheiro público.
E, se quiserem que eu vá além, é também a mesma concepção que impede que mulheres decidam determinadas ações de suas vidas - como aborto, peso, etc. - afinal, nos foi empurrado goela abaixo um padrão X e que fazem de nós (alguns mais que outros, é verdade) vítimas e, ao mesmo tempo, algozes.
Fica então a reflexão - que começa com uma frivolidade, como a história da Hello Kitty, mas que pode ser amplamente utilizada em nossa vida: se olharmos para o lado e "não entendermos" o que estamos vendo, não podemos tentar "colocar" aquela pessoa numa prateleira que nos remeta a algum padrão já conhecido. É feio, é falta de respeito com o coleguinha e é burro. Tentemos sempre desconstruir essas imagens que temos preconcebidas em nós, principalmente no que toca ao corpo alheio, já que vivemos em uma sociedade obviamente binária (homem x mulher, alto x baixo, magro x alto).
Nossas percepções não são nossas: elas são fruto de uma história opressora, que diminuiu e diminui todos aqueles que se encontram além ou no meio destas classificações primárias que aceitamos e reproduzimos constantemente.
* Sobre a Hello Kitty ser uma menininha: vejam que aqui temos mais um padrão que precisa ser destruído: ela é uma menininha que usa rosa e tem um lacinho na cabeça. E tem um bichinho de estimação chamado Charmmy Kitty. Convido vocês a problematizarem o bigode da Hello Kitty. E, mais: e se ela quisesse que o seu animalzinho se chamasse ALEXANDRE FROTA? Por que não poderia?
Marinismo, agenda gay e eco-b(a)itolagem.
Marina Silva, candidata à Presidência da República após o trágico acidente envolvendo Eduardo Campos, é evangélica. Todo mundo sabe disso. E todo mundo sabe que não é correto julgar uma pessoa com a história política da Marina apenas pela sua religiosidade.
O problema, na verdade, nem é esse.
Ultimamente, acompanhando fóruns no Facebook de militância LGBT, tenho visto que muitas pessoas passaram a fazer campanha em favor da Marina, porque ela, vejam bem, passou a defender o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, assim como a criminalização da homofobia - mesmo que um dia tenha se declarado contrária a estas pautas.
Abaixo a imagem da equipe que assessora a Marina nas redes sociais, e aqui, um link sobre a mudança de pensamento (que, diga-se, é válida, é humana, e que pode ocorrer a todo momento):
Minha primeira implicância: a passagem "O Supremo Tribunal Federal já deu a essa união o estatuto de casamento civil. A questão legal sobre o tema está, portanto, resolvida no Brasil.". Não, quem deu o caráter de casamento civil foi o Conselho Nacional de Justiça, com base na Resolução n. 175, de 14 de maio de 2013, aprovada durante a sua 169ª Sessão Plenária. Isso, inspirado pela histórica decisão do STF sobre a União Homoafetiva, ao julgarem a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132. Ambas, tanto a Resolução, assim como a decisão do STF, possuem efeito vinculante, muito bonito, todo mundo é obrigado.
Até que alguém mude de ideia.
Não existe qualquer segurança jurídica no que acima foi resolvido: o STF pode, a qualquer momento, rever a sua posição, e o CNJ, se quiser, revoga a Resolução. Logo, não há uma "questão legal resolvida no Brasil". E, aos que defendem a pauta do casamento homoafetivo, igualitário, ou qualquer outro nome que lhes seja mais adequado/bonitinho, há ainda uma luta a ser empreendida em prol de um diploma legal que confira ao tema uma segurança jurídica maior, que não esteja passível de mudanças de acordo com a composição do STF e CNJ, e nem dependente do humor dos ministros que compõem os mesmos.
Esse foi o primeiro ponto.
O segundo é uma crítica pessoal em relação ao que Marina está defendendo. De um lado, o casamento igualitário (nome oficial empreendido pela campanha capitaneada pelo Jean Willys) não necessariamente contempla todas as pessoas contidas no universo LGBT[insira-aqui-todas-as-outras-letras-possíveis]. Isso porque, parte da teoria por trás das guei simplesmente não quer o casamento, por entendê-lo como um instituto de natureza eminentemente heteronormativa e que, por isso, deveria ser rechaçado por uma comunidade que surge justamente como uma contracultura. Ora, se eu surjo enquanto movimento contestando determinado ethos , me soa razoável que eu conteste todo o ethos, e não tente assimilar apenas o que eu julgo interessante, ainda mais quando este interessante é puramente heterossexista e transfere para o Estado o controle dos corpos. Se eu contesto a heternormatividade, não posso querer viver a magia do casamento - a cerimônia -, até porque isso vai me fazer lidar com os pesares do mesmo - a burocracia, a imposição da monogamia, a imposição de tipos X de composição familiar (e me desculpem os constitucionalistas, mas é muito bonito falar em ~rol exemplificativo~ do art. 226, mas o conceito de família ainda está muito contaminado por determinados padrões, tanto que as famílias hoje aceitas pelo direito brasileiro são todas oriundas de algum "defeito" da família matrimonial: a monoparental é a cristalização de uma situação de fato em que um dos pais falta; a união estável é a cristalização de uma família que não deseja o casamento).
De outro lado, há a questão, não menos polêmica, da criminalização da homofobia. Me soa um pouco óbvio que todo crime deve ser punido - respeitando-se, claro, toda a dogmática criminal, os direitos fundamentais, etc., etc. Porém, no Brasil, há uma clara política de "sedução" do Direito Penal. Tudo aqui vira lei criminal. Muito, talvez, pela inspiração pedagógica da norma criminal: se existe um fato típico, não vou nele incorrer, pois posso sofrer as consequências da lei. Só que muito pouco se investe no caráter punitivo - e, além, ressocializador - da mesma norma. O sistema prisional brasileiro é a epítome da falência e, como se já não bastassem presídios cheios, sem infraestrutura e a assombração do lema "bandido bom é bandido morto" e que, por isso, se torna até interessante jogar os "bandidos" em algum lugar fétido, porque ao menos assim ele não está na sociedade cometendo crimes, há ainda uma evidente questão racial nas persecuções criminais. Quem é preso no Brasil é preto e pobre. Segundo Timothy Ireland, representante da área educacional da Unesco no Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam no perfil da maioria dos presos no Brasil, são de jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa escolaridade, são 73,83% do total da população carcerária. Mais da metade 66%, não chegaram a concluir o ensino fundamental (fonte da violação de direito autoral). Há, portanto, que se ter cuidado ao falar da criação de mais uma lei penal. Acho que deve existir um engajamento sim em relação ao combate à homofobia (e eu seria um completo idiota em negar isso, afinal, posso tomar uma lâmpada na cara a qualquer momento, em especial agora que estou malhando mais as pernas para poder usar leggings neste verão), mas a criminalização em si tem que ser debatida em todos os seus aspectos, e não apenas jogada como moeda de troca de votos - vai existir um programa pedagógico aliado? Será investido em capacitação policial e em aparelhamento estatal, aos moldes da Maria da Penha? Teremos medidas socioeducativas adequadas?
Um último ponto, que dá menos dor de cabeça como o anterior é: Marina possui um histórico, muito bom, no Meio Ambiente que, aliás, é um direito humano e que merece a máxima atenção do Estado. Porém, estamos falando de UM direito humano, dentro de tantos outros. E, se for para sermos bem materialistas, é UM ministério dentro de tantos outros que merecem atenção. As considerações finais da Marina me deixaram um pouco preocupado com um eventual governo dela: ela foi enfática quando afirmou que defende saúde-educação-segurança pública (e não falar do óbvio seria um crime) e infraestrutura para atender as necessidades estratégicas (...) para que a nossa produção agrícola não tenha o prejuízo que tem. E aí ela emenda com a Justiça Social. Argumentativamente falando, o que ela deu mais atenção à questão agrícola e concluiu com o tema da justiça social. Ou seja: choveu no molhado e reafirmou o que sempre defendeu: colocou a questão ambiental, em sentido lato, no centro de tudo. E, reafirmo, por mais importante que isto seja, não há como, num país do tamamho do nosso, ser este o epicentro de um programa eleitoral. E devo lembrar que Marina está assessorada: o discurso final dela não surgiu do nada. É, definitivamente, o seu programa - que, aos meus olhos, é bitolado.
O que eu defendo é: temos o mês de setembro inteiro para lermos sobre nossos candidatos e formar uma mentalidade coesa para o mesmo, para que nosso voto seja inteiramente consciente. Se você é eleitor da Marina, o seja conscientemente, e não porque ela prometeu um ou dois direitos para a comunidade LGBT. Como disse em outro texto meu, um país não é feito apenas pela agenda LGBT. Devemos, sim, ser contemplados, e há uma militância muito grande em prol disto. Mas, se dita agenda não é a única que deve compor um programa de governo, ela não pode ser a única razão para concedermos um voto a um candidato. Existem inúmeras questões que o Brasil precisa trabalhar e é nosso dever, enquanto portadores de um título de eleitor (e nem estou falando em "cidadania"), estudar e conhecer sobre tudo para que possamos, ao menos, nos lembrar em quem votamos nas últimas eleições, caso indagados em 2018.
O problema, na verdade, nem é esse.
Ultimamente, acompanhando fóruns no Facebook de militância LGBT, tenho visto que muitas pessoas passaram a fazer campanha em favor da Marina, porque ela, vejam bem, passou a defender o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, assim como a criminalização da homofobia - mesmo que um dia tenha se declarado contrária a estas pautas.
Abaixo a imagem da equipe que assessora a Marina nas redes sociais, e aqui, um link sobre a mudança de pensamento (que, diga-se, é válida, é humana, e que pode ocorrer a todo momento):
Minha primeira implicância: a passagem "O Supremo Tribunal Federal já deu a essa união o estatuto de casamento civil. A questão legal sobre o tema está, portanto, resolvida no Brasil.". Não, quem deu o caráter de casamento civil foi o Conselho Nacional de Justiça, com base na Resolução n. 175, de 14 de maio de 2013, aprovada durante a sua 169ª Sessão Plenária. Isso, inspirado pela histórica decisão do STF sobre a União Homoafetiva, ao julgarem a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132. Ambas, tanto a Resolução, assim como a decisão do STF, possuem efeito vinculante, muito bonito, todo mundo é obrigado.
Até que alguém mude de ideia.
Não existe qualquer segurança jurídica no que acima foi resolvido: o STF pode, a qualquer momento, rever a sua posição, e o CNJ, se quiser, revoga a Resolução. Logo, não há uma "questão legal resolvida no Brasil". E, aos que defendem a pauta do casamento homoafetivo, igualitário, ou qualquer outro nome que lhes seja mais adequado/bonitinho, há ainda uma luta a ser empreendida em prol de um diploma legal que confira ao tema uma segurança jurídica maior, que não esteja passível de mudanças de acordo com a composição do STF e CNJ, e nem dependente do humor dos ministros que compõem os mesmos.
Esse foi o primeiro ponto.
O segundo é uma crítica pessoal em relação ao que Marina está defendendo. De um lado, o casamento igualitário (nome oficial empreendido pela campanha capitaneada pelo Jean Willys) não necessariamente contempla todas as pessoas contidas no universo LGBT[insira-aqui-todas-as-outras-letras-possíveis]. Isso porque, parte da teoria por trás das guei simplesmente não quer o casamento, por entendê-lo como um instituto de natureza eminentemente heteronormativa e que, por isso, deveria ser rechaçado por uma comunidade que surge justamente como uma contracultura. Ora, se eu surjo enquanto movimento contestando determinado ethos , me soa razoável que eu conteste todo o ethos, e não tente assimilar apenas o que eu julgo interessante, ainda mais quando este interessante é puramente heterossexista e transfere para o Estado o controle dos corpos. Se eu contesto a heternormatividade, não posso querer viver a magia do casamento - a cerimônia -, até porque isso vai me fazer lidar com os pesares do mesmo - a burocracia, a imposição da monogamia, a imposição de tipos X de composição familiar (e me desculpem os constitucionalistas, mas é muito bonito falar em ~rol exemplificativo~ do art. 226, mas o conceito de família ainda está muito contaminado por determinados padrões, tanto que as famílias hoje aceitas pelo direito brasileiro são todas oriundas de algum "defeito" da família matrimonial: a monoparental é a cristalização de uma situação de fato em que um dos pais falta; a união estável é a cristalização de uma família que não deseja o casamento).
De outro lado, há a questão, não menos polêmica, da criminalização da homofobia. Me soa um pouco óbvio que todo crime deve ser punido - respeitando-se, claro, toda a dogmática criminal, os direitos fundamentais, etc., etc. Porém, no Brasil, há uma clara política de "sedução" do Direito Penal. Tudo aqui vira lei criminal. Muito, talvez, pela inspiração pedagógica da norma criminal: se existe um fato típico, não vou nele incorrer, pois posso sofrer as consequências da lei. Só que muito pouco se investe no caráter punitivo - e, além, ressocializador - da mesma norma. O sistema prisional brasileiro é a epítome da falência e, como se já não bastassem presídios cheios, sem infraestrutura e a assombração do lema "bandido bom é bandido morto" e que, por isso, se torna até interessante jogar os "bandidos" em algum lugar fétido, porque ao menos assim ele não está na sociedade cometendo crimes, há ainda uma evidente questão racial nas persecuções criminais. Quem é preso no Brasil é preto e pobre. Segundo Timothy Ireland, representante da área educacional da Unesco no Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam no perfil da maioria dos presos no Brasil, são de jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa escolaridade, são 73,83% do total da população carcerária. Mais da metade 66%, não chegaram a concluir o ensino fundamental (fonte da violação de direito autoral). Há, portanto, que se ter cuidado ao falar da criação de mais uma lei penal. Acho que deve existir um engajamento sim em relação ao combate à homofobia (e eu seria um completo idiota em negar isso, afinal, posso tomar uma lâmpada na cara a qualquer momento, em especial agora que estou malhando mais as pernas para poder usar leggings neste verão), mas a criminalização em si tem que ser debatida em todos os seus aspectos, e não apenas jogada como moeda de troca de votos - vai existir um programa pedagógico aliado? Será investido em capacitação policial e em aparelhamento estatal, aos moldes da Maria da Penha? Teremos medidas socioeducativas adequadas?
Um último ponto, que dá menos dor de cabeça como o anterior é: Marina possui um histórico, muito bom, no Meio Ambiente que, aliás, é um direito humano e que merece a máxima atenção do Estado. Porém, estamos falando de UM direito humano, dentro de tantos outros. E, se for para sermos bem materialistas, é UM ministério dentro de tantos outros que merecem atenção. As considerações finais da Marina me deixaram um pouco preocupado com um eventual governo dela: ela foi enfática quando afirmou que defende saúde-educação-segurança pública (e não falar do óbvio seria um crime) e infraestrutura para atender as necessidades estratégicas (...) para que a nossa produção agrícola não tenha o prejuízo que tem. E aí ela emenda com a Justiça Social. Argumentativamente falando, o que ela deu mais atenção à questão agrícola e concluiu com o tema da justiça social. Ou seja: choveu no molhado e reafirmou o que sempre defendeu: colocou a questão ambiental, em sentido lato, no centro de tudo. E, reafirmo, por mais importante que isto seja, não há como, num país do tamamho do nosso, ser este o epicentro de um programa eleitoral. E devo lembrar que Marina está assessorada: o discurso final dela não surgiu do nada. É, definitivamente, o seu programa - que, aos meus olhos, é bitolado.
O que eu defendo é: temos o mês de setembro inteiro para lermos sobre nossos candidatos e formar uma mentalidade coesa para o mesmo, para que nosso voto seja inteiramente consciente. Se você é eleitor da Marina, o seja conscientemente, e não porque ela prometeu um ou dois direitos para a comunidade LGBT. Como disse em outro texto meu, um país não é feito apenas pela agenda LGBT. Devemos, sim, ser contemplados, e há uma militância muito grande em prol disto. Mas, se dita agenda não é a única que deve compor um programa de governo, ela não pode ser a única razão para concedermos um voto a um candidato. Existem inúmeras questões que o Brasil precisa trabalhar e é nosso dever, enquanto portadores de um título de eleitor (e nem estou falando em "cidadania"), estudar e conhecer sobre tudo para que possamos, ao menos, nos lembrar em quem votamos nas últimas eleições, caso indagados em 2018.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
porta aberta, janela fechada.
Havia uma janela, mas sempre houve uma porta.
A janela, apesar de aberta, era apenas aquela abertura que, para que eu pudesse ingressar no outro cômodo (um pouco mais cômodo), eu teria de pular, gatuno e sorrateiro, roubando um lugar que sequer é meu. Não é meu, porque não contempla os meus ideais. Também não é meu, porque não me permito invasões na calada da noite. Muito trabalho para pouca recompensa. Dali eu não tiraria nada. Portanto, era mera invasão. E, num dado momento, eu não quis mais.
E a porta, eu costumava bater com a minha cara nela. Mas batia cara nela porque eu tenho essa péssima mania de socar pontas de facas e minha testa em quinas de mesa. Apenas para tornar a experiência desagradável, neste pensamento provinciano que sempre me acompanha de que eu preciso honrar o papel colado na parede e o destino tecido por terceiros para... mim. Talvez ela estivesse fechada, mas bastava girar a maçaneta, abrir meu melhor sorriso e respirar o ar puro que vem lá de fora (e o quintal é arborizado e não cinza como eu supunha). Quem diria.
No momento que eu fechei a janela, percebi que não poderia viver em clausura.
A maçaneta girou sozinha com três convites para ladrilhar com pedrinhas de brilhante um amanhã tão instável como o de ontem, mas, que, por ora, me permite uma esperança.
Pra que dizer não, com tantos sim dedilhados em violas mansas?
domingo, 24 de agosto de 2014
cafetina
Não me presto a conchavos.
Eu, que tenho pavor da formalidade do tapete vermelho e da gravata que enforca e faz presa na epiglote a fumaça mal inalada do último cigarro, não tenho o hábito de virar desengonçado o Chandon das parcerias interesseiras e desinteressadas.
O que me move, além das pernas ligeirinhas, 14 quilômetros por hora rumo a lugar nenhum, é a verdade - e não toneladas de kilobytes jogados na masmorra verde da discórdia. E, por verdade, entendo a desconstrução de tudo aquilo que meus opositores hoje trabalham arduamente para manter (e não há nada de verdadeiramente libertador em recatar o decote e glorificar o falo).
Por isso, me jogo.
Minha ferramenta política é o meu corpo.
Porque, se a coletividade na qual creio é minha cafetina, sinto-me confortável em ser a puta do meu próprio destino. E hoje eu não vou dar. Eu vou distribuir.
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